O culto à beleza

Mais uma consequência desse mundo capitalista

Por Natália Sper

Na era em que vivemos hoje a busca pela beleza é algo incansável; cada vez mais mulheres e homens percorrem alternativas para deixar seu estereótipo como àqueles rostos e corpos estampados na televisão – propagandas viram vitrines.

No século XXI, com a Revolução Tecnológica, o campo da medicina ficou mais fértil, ficou mais fácil vender saúde, beleza e vida aos seres humanos, e esses embargados pela fantasia explorada na mídia, principalmente, na televisão, se iludem com a ideia de poder
possuir um corpo impecável e um rosto perfeito.

Cada dia mais mulheres e homens buscam centros médicos com o intuito de mudar algo natural, é uma luta incontrolável pela perfeição e a aparência virou assunto primordial – é mais importante o que temos por fora, do que quem realmente somos por dentro. Nosso corpo vira nossa marca e passam a ser nossos “não-lugares”, pois viram locais de passagem, afinal podemos mudá-los a cada instante e alterar qualquer característica que não nos agrade.

O mercado da beleza é um ótimo negócio para quem pensa em ganhar dinheiro – e só pensa nisso. Na era do consumismo desenfreado, a beleza virou produto, nosso corpo passa a ser mercadoria – alteram-se os diálogos e anulam-se os sentimentos – ninguém é mais interessante do que bonito.

Inseridos nesse cenário, nos esquecemos dos valores da vida – na verdade, transferimos esses valores – deixamos de nos importar com aspectos que valham à pena, que provoquem crescimento, que alimentem sentimentos, que causem explosão de pensamentos, para nos preocuparmos com coisas que passam, que acabam e que não são fruto de um amadurecimento e de uma reforma íntima.

O problema é que quanto mais a humanidade caminha para esse mundo de estereótipos, menos se questiona sobre como estão se dando as relações humanas, como imaginamos um futuro – e qual futuro queremos para nossas próximas gerações – e como podemos
minimizar os resultados causado por esse contexto, responsável por alterar valores, crenças, gostos e sentimentos.

A beleza pode ser entendida de diversas formas, o dicionário define cinco significados para a palavra, tais como: 1) Combinação de qualidades que impressionam agradavelmente a visão ou outros sentidos; 2) Qualidade de uma pessoa bela; 3) Fig. Caráter do que é intelectualmente ou moralmente digno de admiração; 4) Fig. Pessoa muito bela, atraente e sedutora e 5) Tudo aquilo que constitui a atração de um lugar.

Qual é o seu significado para a beleza?

“A verdadeira beleza, a beleza que põe mesa, e que deita na cama, a beleza de quem come, a beleza de quem ama, a beleza do erro, do engano da imperfeição”, Zeca Baleiro.

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Entre o Ser e Ter na era do consumismo

Por Natália Sper

Qual marca você está usando? Em pleno século XXI, onde o consumismo tornou-se o oitavo pecado capital, nos deparamos com esse tipo de pergunta constantemente – isso quando não somos nós mesmos que a fizemos.

A marca ganhou vida própria e possuí-la é tão, quanto mais importante que consumir o próprio produto, e mais, possuí-la é ganhar reconhecimento perante a sociedade. Muitas vezes, em muitos lugares, não somos mais reconhecidos pelo curso que concluímos, pela universidade que prestamos, pelo trabalho que desenvolvemos, ganhamos poderes pela roupa, o carro, o perfume que utilizamos. Não se vê mais a essência do ser, mas a aparência.

Deixamos de ser homem e nos tornamos coisas: “já não me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente”, já dizia Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Eu, etiqueta”.

Marcas viram identidades, bens de consumo, necessidades, modos de vida – o que altera uma cadeia de geração, de costumes, de crenças. Marcas viram empresas, empresas giram negócios, negócios movimentam o mundo; e naturalmente somos inseridos no contexto, e imperceptivelmente (ou não), fomos totalmente comprados por uma ideia, uma marca, uma empresa. “Não se é uma marca de qualidade, mas pode transformar-se numa empresa aérea, numa linha de móveis, num restaurante temático” (KLEIN Naomi, 2004).

Na era tecnológica, esse consumo desenfreado e a busca incansável pelo ter, tornaram-se ainda maiores, pois a possibilidade de concorrência, de produzir produtos em grande escala, instigou o ser humano a se aplicar na cultura do consumismo, anulando assim outras formas de cultura: a da aproximação e reconhecimento.

Portanto, não pretendo propor uma reflexão tão radical que anule a ideia de consumo – até porque no sistema em que vivemos negar o consumo, é negar a si mesmo – e o ato de consumir é um direito humano. No entanto, é necessário que se promova uma discussão sobre o consumo desenfreado: o verdadeiro consumismo. Pois, este modelo vem causando alterações irreversíveis na cadeia de valor, pessoas deixam de ser para ter. Perdem-se as identidades, trocam-se os valores, anulam-se a essência.

“Giorgio
Eu tive um sonho risonho e terno
Sonhei que eu era um anjo elegante no inferno
Giorgio
Eu sinto medo na longa estrada
O medo é a moda desta triste temporada
Giorgio
Tá tudo assim nem sei tá tão estranho
A cor dessa estação é cinza como o céu de estanho” (Zeca Baleiro)