Fotografia digital: A tecnologia como o fim da criação artística e a nossa relação com a imagem

Por Alessandra Rios

Já foi a época em que a arte de fotografar tinha o seu glamour, ou melhor dizendo, era “mais artística”. Com a chegada das máquinas fotográficas digitais, especialmente as mais modernas, acopladas ao celular, o conceito de fotografar e a nossa relação com as imagens mudou no mundo inteiro. Para sempre.

A fotografia surgiu no inicio do século XIX, e era dedicada, anteriormente, a eternizar as famílias. Tirar uma foto, naqueles tempos, era um grande evento: os adultos e crianças tomavam banho, numa época em que a higiene diária não fazia parte de seus hábitos; eram escolhidas as melhores roupas; as mulheres escovavam os cabelos, os homens engraxavam os sapatos. Cada detalhe era perfeitamente cuidado, afinal, o registro ficaria para a história.

Com o tempo, a máquina fotográfica foi se popularizando e a tecnologia se tornando mais barata e acessível às pessoas. Ainda com a função de registrar momentos, as famílias adquiriam máquinas fotográficas e filmes de 12, 24 ou 36 poses – o que já era considerado um exagero – para eternizar eventos considerados importantes, como a festa de aniversário dos filhos ou uma viagem de férias.

Eis que um belo dia, a tecnologia permite o advento da máquina fotográfica digital.
Antes, a dúvida entre a escolha de um filme em PB (preto e branco) ou colorido pode
agora ser resolvida na própria máquina digital, ao girar um botão para lá ou para cá.
O novo suporte da fotografia já não é mais o papel e sim os HD’s dos computadores
cada vez mais abarrotados, esperando pela revelação de álbuns que nunca ocorre.

Na fotografia digital, o filme já não é mais o limitador da quantidade de registros como era na analógica. Não gostou da foto? Nem precisa apagar; faça outra e mais outra…
e ainda outra. Quantas forem necessárias (ou desnecessárias).

E, em meio à facilidade de apagar e refazer, editar e reeditar as fotografias, os fotógrafos (tanto amadores, quanto profissionais) estão apontando suas máquinas para todos os lados, sem um mínimo de senso crítico e sem parar para perguntar o que se quer fotografar. O foco da fotografia deixa de ser os eventos importantes e passa a ser qualquer coisa que eu deseje, principalmente eu mesmo, com meus auto-retratos. Resultado: milhares de fotos repetidas e muitas vezes desprovidas de sentido que, quando não esquecidas em uma pasta qualquer do HD, por excesso de imagens acabam gerando desinformação. Lembramos, aqui, da velha teoria da Iconofagia, de Norval Baitello Junior: “somos nós quem devoramos as imagens ou são elas que nos devoram”?

O problema maior surge quando a falta de senso crítico parte para o campo profissional. Com as inúmeras possibilidades técnicas da máquina fotográfica, há quem ande por aí brincando de ser fotógrafo e pior, há muitos comprando essa ideia! O dom artístico de compor e criar a imagem fotográfica se confunde com as possibilidades dos “efeitos mágicos” que as câmeras são capazes de criar. Perde-se a referência do que é e do que não é artístico.

Máquinas fotográficas cada vez mais avançadas com controles automáticos aperfeiçoados, softwares de edição capazes de controlar brilho e contrastes, saturação, efeitos de borda e tantas outras coisas parecem fazer milagres e tem servido de armadilha até mesmo para os fotógrafos profissionais, além de cegar muitos para os limites entre o profissional e o amador e entre o artístico e o esdrúxulo tecnológico. Isso se nota, principalmente, com o uso das máquinas
fotográficas acopladas aos iPads, iPhones etc, onde câmera está praticamente em todos os lugares e o tempo todo ao alcance do usuário e da rede, pois o compartilhamento dessas imagens, sobretudo nas redes sociais, alcançou uma velocidade surpreendente e é outro fenômeno a ser observado.

Não é o caso de assumir uma posição partidária ou apartidária ao lado da máquina fotográfica digital e softwares de edição. A verdade é que a fotografia digital mudou, irreversivelmente, a nossa forma de nos relacionarmos com as imagens. E aí se faz necessário compreender: nesse jogo, quem é funcionário de quem. As máquinas são nossas funcionárias ou nós é quem somos funcionárias delas? Esse é o dilema de Vilém Flusser, em sua Filosofia da Caixa Preta.

A fotografia digital tem seus inúmeros benefícios e seria ingenuidade deixar de reconhecê-los, a questão é: estamos fazendo da máquina fotográfica e dos programas de edição o meio ou o fim da criação artística?

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Entre o Ter e o Ser tecnológico

Por Renato Silvestre

“Um bom computador e um carro veloz pra me manter distante de mim”. Esse verso que inicia a canção “Zero e Um” da banda capixada de hard core, Dead Fish, retrata um pouco do espírito do nosso tempo. Um tempo onde o Ter e Parecer corre o risco de tornar-se mais relevante do que Ser.

Nesse tempo de computadores portáteis, celulares magníficos e redes sociais digitais que fascinam e conectam pessoas ao redor do Planeta, em velocidades cada vez maiores, a tecnologia deixa de ser um mero suporte físico aos anseios de criação humanos. Em certa medida, a tecnologia deixa de ser meio e passa a ser o fim, ou o princípio dele.

O convívio social, outrora, fundamental para o processo de autoconhecimento do ser humano é substituído pelo isolamento frente a telas cada vez mais finas. Mesmo quando acompanhados parecemos cada vez mais distantes uns dos outros, distantes de nós mesmos. Ou será que ninguém nunca viu pessoas sentadas à mesma mesa dialogarem mais com seus celulares do que com quem está a sua frente? Ou famílias inteiras mais atentas à novela que colore a TV do que a vida de seus próprios “entes queridos”?

Há uma aflição que paira nesse nosso poluído ar pós-moderno. Uma aflição que se confunde com o deslumbramento diante da “admirável” tecnologia que construímos.

O filósofo tcheco Vilém Flusser já alertava para esse risco constante da criatura tornar-se mais importante do que o criador, fazendo deste um funcionário/dependente de forma extrema do outro.

Estaríamos correndo este risco ou essa seria apenas parte de nossa “evolução” como espécie?

Não é simples responder a esse questionamento, pois a mesma tecnologia que aprisiona também pode libertar, se for usada com sobriedade.

Um exemplo claro disso aconteceu durante a conhecida “Primavera Árabe”, no início de 2011, onde uma onda de manifestações contra os governos ditatoriais em países do norte da África e do Oriente Médio se alastrou e ganhou força por meio de redes sociais digitais como o Facebook e o Twitter. O resultado imediato foi a ganho da atenção mundial, a pressão política e a consequente queda de ditadores como Zine el Abidin Ben Ali e Hosni Mubarak, que se permeavam no comando dos países por 23 e 30 anos, respectivamente.

Por outro lado, esse avanço tecnológico nos faz passar por um tempo de transição, um tempo que causa estranhamento e que é capaz de criar “não lugares” (brincando com o conceito do francês Marc Augé) até nos lugares mais improváveis, como a nossa casa ou nossa família, pois se não há vivência, sentimento de pertencimento, interação e, principalmente, vínculos reais e humanos o “lar doce lar” vira pó tecnológico.

Se fazemos parte de um gigantesco rebanho de um “Admirável Gado Novo” – parafraseando a música de Zé Ramalho – e se estamos atrelados a loucura do consumismo de quem sempre quer o “Admirável Chip Novo” – recordando a canção da baiana Pitty –, só o tempo poderá confirmar. No entanto, o que vejo é que esse “povo marcado e feliz” ainda continua extremamente preso ao poder do talvez imutável “pense, fale, compre, beba”, que desumaniza e programa a humanidade para seguir nessa eterna correria cotidiana, cada vez “mais rápido”!

Fica a reflexão: “Todo excesso traz, em si, o germe da autodestruição!”, Aldous Huxley.