Entre o Ser e Ter na era do consumismo

Por Natália Sper

Qual marca você está usando? Em pleno século XXI, onde o consumismo tornou-se o oitavo pecado capital, nos deparamos com esse tipo de pergunta constantemente – isso quando não somos nós mesmos que a fizemos.

A marca ganhou vida própria e possuí-la é tão, quanto mais importante que consumir o próprio produto, e mais, possuí-la é ganhar reconhecimento perante a sociedade. Muitas vezes, em muitos lugares, não somos mais reconhecidos pelo curso que concluímos, pela universidade que prestamos, pelo trabalho que desenvolvemos, ganhamos poderes pela roupa, o carro, o perfume que utilizamos. Não se vê mais a essência do ser, mas a aparência.

Deixamos de ser homem e nos tornamos coisas: “já não me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente”, já dizia Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Eu, etiqueta”.

Marcas viram identidades, bens de consumo, necessidades, modos de vida – o que altera uma cadeia de geração, de costumes, de crenças. Marcas viram empresas, empresas giram negócios, negócios movimentam o mundo; e naturalmente somos inseridos no contexto, e imperceptivelmente (ou não), fomos totalmente comprados por uma ideia, uma marca, uma empresa. “Não se é uma marca de qualidade, mas pode transformar-se numa empresa aérea, numa linha de móveis, num restaurante temático” (KLEIN Naomi, 2004).

Na era tecnológica, esse consumo desenfreado e a busca incansável pelo ter, tornaram-se ainda maiores, pois a possibilidade de concorrência, de produzir produtos em grande escala, instigou o ser humano a se aplicar na cultura do consumismo, anulando assim outras formas de cultura: a da aproximação e reconhecimento.

Portanto, não pretendo propor uma reflexão tão radical que anule a ideia de consumo – até porque no sistema em que vivemos negar o consumo, é negar a si mesmo – e o ato de consumir é um direito humano. No entanto, é necessário que se promova uma discussão sobre o consumo desenfreado: o verdadeiro consumismo. Pois, este modelo vem causando alterações irreversíveis na cadeia de valor, pessoas deixam de ser para ter. Perdem-se as identidades, trocam-se os valores, anulam-se a essência.

“Giorgio
Eu tive um sonho risonho e terno
Sonhei que eu era um anjo elegante no inferno
Giorgio
Eu sinto medo na longa estrada
O medo é a moda desta triste temporada
Giorgio
Tá tudo assim nem sei tá tão estranho
A cor dessa estação é cinza como o céu de estanho” (Zeca Baleiro)

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Entre o Ter e o Ser tecnológico

Por Renato Silvestre

“Um bom computador e um carro veloz pra me manter distante de mim”. Esse verso que inicia a canção “Zero e Um” da banda capixada de hard core, Dead Fish, retrata um pouco do espírito do nosso tempo. Um tempo onde o Ter e Parecer corre o risco de tornar-se mais relevante do que Ser.

Nesse tempo de computadores portáteis, celulares magníficos e redes sociais digitais que fascinam e conectam pessoas ao redor do Planeta, em velocidades cada vez maiores, a tecnologia deixa de ser um mero suporte físico aos anseios de criação humanos. Em certa medida, a tecnologia deixa de ser meio e passa a ser o fim, ou o princípio dele.

O convívio social, outrora, fundamental para o processo de autoconhecimento do ser humano é substituído pelo isolamento frente a telas cada vez mais finas. Mesmo quando acompanhados parecemos cada vez mais distantes uns dos outros, distantes de nós mesmos. Ou será que ninguém nunca viu pessoas sentadas à mesma mesa dialogarem mais com seus celulares do que com quem está a sua frente? Ou famílias inteiras mais atentas à novela que colore a TV do que a vida de seus próprios “entes queridos”?

Há uma aflição que paira nesse nosso poluído ar pós-moderno. Uma aflição que se confunde com o deslumbramento diante da “admirável” tecnologia que construímos.

O filósofo tcheco Vilém Flusser já alertava para esse risco constante da criatura tornar-se mais importante do que o criador, fazendo deste um funcionário/dependente de forma extrema do outro.

Estaríamos correndo este risco ou essa seria apenas parte de nossa “evolução” como espécie?

Não é simples responder a esse questionamento, pois a mesma tecnologia que aprisiona também pode libertar, se for usada com sobriedade.

Um exemplo claro disso aconteceu durante a conhecida “Primavera Árabe”, no início de 2011, onde uma onda de manifestações contra os governos ditatoriais em países do norte da África e do Oriente Médio se alastrou e ganhou força por meio de redes sociais digitais como o Facebook e o Twitter. O resultado imediato foi a ganho da atenção mundial, a pressão política e a consequente queda de ditadores como Zine el Abidin Ben Ali e Hosni Mubarak, que se permeavam no comando dos países por 23 e 30 anos, respectivamente.

Por outro lado, esse avanço tecnológico nos faz passar por um tempo de transição, um tempo que causa estranhamento e que é capaz de criar “não lugares” (brincando com o conceito do francês Marc Augé) até nos lugares mais improváveis, como a nossa casa ou nossa família, pois se não há vivência, sentimento de pertencimento, interação e, principalmente, vínculos reais e humanos o “lar doce lar” vira pó tecnológico.

Se fazemos parte de um gigantesco rebanho de um “Admirável Gado Novo” – parafraseando a música de Zé Ramalho – e se estamos atrelados a loucura do consumismo de quem sempre quer o “Admirável Chip Novo” – recordando a canção da baiana Pitty –, só o tempo poderá confirmar. No entanto, o que vejo é que esse “povo marcado e feliz” ainda continua extremamente preso ao poder do talvez imutável “pense, fale, compre, beba”, que desumaniza e programa a humanidade para seguir nessa eterna correria cotidiana, cada vez “mais rápido”!

Fica a reflexão: “Todo excesso traz, em si, o germe da autodestruição!”, Aldous Huxley.