A otimização do tempo na era do “Tecnocentrismo”

É possível?

Por Alessandra Rios

Como ter um dia de 36 horas, Assumindo o controle do seu tempo, Sete dicas infalíveis para otimizar o seu tempo. A questão da otimização do tempo parece ser uma das mais novas pautas do século XXI e o título mais famoso das capas de milhares de livros espalhados em livrarias, bancas de jornal e de incontáveis artigos na internet.

A maioria dos “conselhos” vêm escritos em intermináveis tópicos e ocupam mais de uma centena de páginas na maioria dos livros, uma lógica um tanto contrária ao que os autores se propõe a ensinar: a otimização de tempo.

Como não poderia deixar de ser, o mercado de bens de consumo e serviços logo viu uma oportunidade de ampliar as suas ofertas e elas rapidamente se converteram não somente em livros, DVD’s e consultorias oferecendo palestrantes renomados e especialistas no assunto, bem como em softwares dedicados em fazer o nosso dia de trabalho render mais de 24 horas e em nos disponibilizar sete dias por semana.

É interessante notar como essas ferramentas interferiram radicalmente em nosso ambiente e cultura de trabalho. Acreditava-se, em um passado não tão distante, que por meio da tecnologia seria possível diminuir o tempo dos profissionais, gasto em trabalhos operacionais, empregá-lo em atividades mais estratégicas e proporcionar menor sobrecarga de trabalho.

Foi aí que a criatura se voltou contra o seu próprio criador e, na impossibilidade de se igualar a ele, o fez escravo de si. Diante da irresistível tentação de controlar inúmeros processos burocráticos, as empresas passam a colocar o planejamento estratégico de lado, dando lugar à implantação de softwares de controle para todo o tipo de operação. Afinal, quem resiste uma planilha de Excel, e o maravilhoso mundo da tabela dinâmica?

Longe de desmerecer o Pacote Office, os demais softwares e todas as suas vantagens, a intenção é resgatar o objetivo inicial dessas ferramentas e questionar se elas realmente contribuem para a otimização de tempo. E se de fato caminham nessa direção, o que é feito com o precioso “tempo que nos sobra”?

Nas passarelas do mundo corporativo desfila agora uma nova moda: as ferramentas de colaboração virtual. O Avaya Flare, da companhia norte-americana de telecomunicações Avaya, surge em 2010 no mercado global para os executivos com o apelo da otimização de tempo de seus funcionários e transformação destes em “profissionais multitarefa”. Através de um aparelho descomplicado e uma interface amigável, é possível fazer e receber chamadas de voz e vídeo, acessar o e-mail, a internet, compartilhar arquivos entre outros. Tudo isso, ao mesmo tempo, com diversas pessoas e em uma tela de 10’. Há menos de um século, a cena da “food machine”, no filme Tempos Modernos, parecia prever nossos dias atuais.

Mais uma vez é necessário reforçar: seria ingênuo e até mesmo de tamanha ignorância negar as grandes contribuições da tecnologia na diminuição do vácuo “tempo x espaço” e no aspecto econômico, já que, com esses novos recursos é possível resolver assuntos importantes a quilômetros de distância, sem precisar pagar passagem de avião, hospedagem em hotel e locomoção. Porém, seria igualmente ingênuo acreditar que essas mesmas tecnologias vieram para nos proporcionar maior “tempo livre”, até mesmo no ambiente de trabalho.

Não escutamos apenas uma ou duas vezes pessoas dizerem que o dia deveria ter pelo menos 36h. Para os desavisados, ao menos no mundo dos negócios, ele já tem muito mais que isso. De acordo com pesquisas da área de Recursos Humanos, atualmente, o volume de atividades que coordenamos diariamente em nossas nove ou dez horas de trabalho corresponde a mais de 40 horas trabalhadas, considerando que nos dedicaríamos a uma atividade por vez, de forma eficiente e dentro de um prazo considerado razoável. Não é preciso nem mencionar a responsável por toda essa “evolução”.

Virou clichê entre os não adeptos à tecnologia, mas pode ser que a reflexão valha a pena: a tecnologia veio ao mundo para resolver não todos, mas boa parte dos problemas que antes dela nós não tínhamos como, por exemplo, a otimização de tempo.

Estamos definitivamente na era do “Tecnocentrismo”. E por diversas vezes, ao experimentarmos a sensação de que nosso preciso tempo se esvai pelo ralo do maravilhoso mundo da tecnologia, talvez possamos transformar o slogan da Avaya em uma questão a ser pensada: “technology really puts people first”?

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Entre o Ter e o Ser tecnológico

Por Renato Silvestre

“Um bom computador e um carro veloz pra me manter distante de mim”. Esse verso que inicia a canção “Zero e Um” da banda capixada de hard core, Dead Fish, retrata um pouco do espírito do nosso tempo. Um tempo onde o Ter e Parecer corre o risco de tornar-se mais relevante do que Ser.

Nesse tempo de computadores portáteis, celulares magníficos e redes sociais digitais que fascinam e conectam pessoas ao redor do Planeta, em velocidades cada vez maiores, a tecnologia deixa de ser um mero suporte físico aos anseios de criação humanos. Em certa medida, a tecnologia deixa de ser meio e passa a ser o fim, ou o princípio dele.

O convívio social, outrora, fundamental para o processo de autoconhecimento do ser humano é substituído pelo isolamento frente a telas cada vez mais finas. Mesmo quando acompanhados parecemos cada vez mais distantes uns dos outros, distantes de nós mesmos. Ou será que ninguém nunca viu pessoas sentadas à mesma mesa dialogarem mais com seus celulares do que com quem está a sua frente? Ou famílias inteiras mais atentas à novela que colore a TV do que a vida de seus próprios “entes queridos”?

Há uma aflição que paira nesse nosso poluído ar pós-moderno. Uma aflição que se confunde com o deslumbramento diante da “admirável” tecnologia que construímos.

O filósofo tcheco Vilém Flusser já alertava para esse risco constante da criatura tornar-se mais importante do que o criador, fazendo deste um funcionário/dependente de forma extrema do outro.

Estaríamos correndo este risco ou essa seria apenas parte de nossa “evolução” como espécie?

Não é simples responder a esse questionamento, pois a mesma tecnologia que aprisiona também pode libertar, se for usada com sobriedade.

Um exemplo claro disso aconteceu durante a conhecida “Primavera Árabe”, no início de 2011, onde uma onda de manifestações contra os governos ditatoriais em países do norte da África e do Oriente Médio se alastrou e ganhou força por meio de redes sociais digitais como o Facebook e o Twitter. O resultado imediato foi a ganho da atenção mundial, a pressão política e a consequente queda de ditadores como Zine el Abidin Ben Ali e Hosni Mubarak, que se permeavam no comando dos países por 23 e 30 anos, respectivamente.

Por outro lado, esse avanço tecnológico nos faz passar por um tempo de transição, um tempo que causa estranhamento e que é capaz de criar “não lugares” (brincando com o conceito do francês Marc Augé) até nos lugares mais improváveis, como a nossa casa ou nossa família, pois se não há vivência, sentimento de pertencimento, interação e, principalmente, vínculos reais e humanos o “lar doce lar” vira pó tecnológico.

Se fazemos parte de um gigantesco rebanho de um “Admirável Gado Novo” – parafraseando a música de Zé Ramalho – e se estamos atrelados a loucura do consumismo de quem sempre quer o “Admirável Chip Novo” – recordando a canção da baiana Pitty –, só o tempo poderá confirmar. No entanto, o que vejo é que esse “povo marcado e feliz” ainda continua extremamente preso ao poder do talvez imutável “pense, fale, compre, beba”, que desumaniza e programa a humanidade para seguir nessa eterna correria cotidiana, cada vez “mais rápido”!

Fica a reflexão: “Todo excesso traz, em si, o germe da autodestruição!”, Aldous Huxley.