O Eu realizado?

Por Magno Viana

Valére Tasso personagem da atriz espanhola Belén Fabra, no filme “Diário Proibido”, estreado em setembro de 2009, sob a direção de Christian Molina, é uma moça que teve bastante afinidade com a avó Granny, personagem de Geraldine Chaplin, filha do cineasta Charles Chaplin. E, nos últimos momentos da vida esta faz uma retrospectiva de tudo o que viveu e descobre que, apesar de ser admirada pela neta por ter vivido uma linda e longa história de amor com o marido, se pudesse voltar no tempo deixaria outro enredo para os descendentes.

Ela afirma que ao invés de ter conhecido um único homem, gostaria de ter sido possuída por vários. Realizaria diversos desejos e provaria muitas experiências. Valére observa Granny atenta e reverentemente, como se por trás da revelação houvesse mensagens subliminares fortes e indispensáveis. Com o subsequente falecimento da avó, Valére conclui que o melhor que ela tem a fazer é viver realizando os desejos mais íntimos. Ela se revela uma verdadeira ninfomaníaca. Desiste de repetir a história dos antepassados, e passa a contrair relações sexuais com muitos parceiros.

Depois de algum tempo tem a oportunidade de conhecer um empresário bem-sucedido que se apaixona por ela e a pede em casamento. Ao ser seduzida pelo intenso romantismo, Valére se casa. Pela vasta experiência sexual que ela demonstra ter, o marido fica extremamente enciumado, e transforma a vida de ambos, principalmente a dela em um pesadelo. Quando se separa dele ela resolve ser prostituta. Tinha curiosidade sobre este universo, e também ia fazer o que mais gostava, sendo beneficiada financeiramente.

Ao começar a fazer programas ela se envolve, mas consegue mostrar competência. É humilhada por cliente, e descobre que chegou a hora de deixar de ser marafona. Valére é uma mulher que vive a liberdade da forma que a concebe. Fazendo o que considera certo, e até quando convêm. Sofre mas, não tem pena de si mesma. Em um brusco momento de insanidade pensou que o suicídio fosse o escape ideal para se livrar do ex-marido que não aceita a separação. Contudo resolve lutar pela vida sem constrangimento nem mediocridade, muito menos observando paradigmas sociais.

Uma história para ser contada e analisada, acredita-se, sem preconceito nem julgamento de valor. Todavia, para uma repentina reflexão, talvez caiba uma pergunta: Até onde a liberdade torna o ser humano realmente livre? Não se sabe ao certo se as mulheres mencionadas no livro “Admirável Mundo Novo”, 1932, do escritor britânico Aldous Huxley, assim como Valére, sentem-se completas com a permissividade a que se outorgam. Isso também pode ser de menos importância investigando os dois casos dentro dos contextos nos quais ocorrem: no filme existe uma ninfomaníaca cheia de curiosidade, no livro apresenta-se uma sociedade onde tudo é permitido.

A obra de Huxley descreve, entre outras coisas, o comportamento de duas personagens femininas denominadas Lenina e Fanny Crowne. Elas pensam que é terminantemente vedado o uso do termo proibir. Fazem sexo com uma quantidade diversificada de homens, pois, acreditam que a promiscuidade é uma virtude absolutamente necessária aos seres civilizados. “O elevador estava cheio de homens… e a entrada de Lenina foi acolhida com… sorrisos amistosos. A jovem [já]… havia passado a noite com quase todos eles. (HUXLEY, p. 103)”.

O escritor mostra que os homens também se permitem viver uma intensa promiscuidade, o que não impressiona tanto, senão por um caso citado, no qual uma personagem supera até mesmo um monarca dos tempos bíblicos chamado Salomão. Se este teve 1000 (mil) mulheres durante toda a vida, Helmholtz Watson, um campeão de Pelota-Escalátor, é declarado como possuidor da fama de amante infatigável, por ter feito sexo com 640 (seiscentas e quarenta mulheres) em menos de quatro anos (p.116).

No filme e também no livro, percebe-se o desejo de florescimento do Eu. Eu enquanto homem, mulher, ser humano, ser apreciador dos desejos libidinosos, com qualidades e defeitos, vontades e manias. Eu totalmente desprendido de dogmas e recalques, à procura, provavelmente, da própria essência. A busca do âmago, talvez seja permanente, ainda que não ininterrupta. O caminho para a descoberta pode ser múltiplo ou específico, a depender do perfil de cada examinador.

As personagens citadas fizeram o que reputaram melhor. Desta forma, a coragem as transforma em seres ativos dentro de determinado circuito da existência. Não se pode asseverar que foram mais felizes que os menos audazes. Se a oportunidade de conquista da auto realização for única, e for comprovado que o conceito de satisfação independe do certo ou errado, posto ser esse julgamento, realmente subjetivo. Consequentemente todos agarraram a felicidade por terem saciado o desejo.

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A aceitação do ser ou o que ele pode ser…

Por Magno Viana

No filme “Um Método Perigoso” (trailer abaixo), exibido em primeira mão no Festival de Veneza de 2011, com direção de David Cronenberg e protagonizado por Keira Knightley, Michael Fassbender e Viggo Mortensen, trabalha-se o estranho comportamento da paciente russa Sabina Spielrein (Knightley). Ela apresenta transtornos mentais que a levam à autodestruição. O médico, Carl Jung (Fassbender), que a atende em uma clínica de Zurique, pesquisa a fundo para entender a história dela e apresentar um diagnóstico e antídoto.

Mediante o diálogo e viagem retrospectiva o psicanalista acredita que encontrará respostas para o sofrimento de Sabina, pois ela vive afetada pelo sentimento de culpa, histeria e esquizofrenia. Pretendendo oferecer um tratamento eficiente, Jung procura Sigmund Freud (Mortensen), o pai da psicanálise, e expõe o caso. Este acredita que o cerne da questão reside na sexualidade, e que todo ser humano é o que nasceu para ser. Desta forma, cabia ao profissional auxiliá-lo no processo de auto aceitação, para que a pessoa em tratamento pudesse fazer o que desejasse e relacionar-se tanto pessoal como profissional e sexualmente com quem e da maneira que escolhesse.

Entretanto, Jung percebia o problema na não descoberta do homem sobre o que ele poderia vir a ser. Sendo assim, mesmo na condição de discípulo de Freud, ele discordava do mestre. O primeiro era protestante e o segundo, judeu. Este fato originava divergências além de conceituais e profissionais, religiosas. Que influenciavam o tipo de terapêutica disponibilizado por eles aos doentes. Mesmo considerando a profundidade e relevância das teorias freudianas, Jung via no mestre manipulação e inflexibilidade inaceitáveis. Mas Sabina, que mais tarde foi atendida também por Freud, concordava com este. Ela concebia a solução para os transtornos na auto aceitação.

A principal razão do rompimento entre os dois especialistas foi a discordância acima citada. Todavia, tanto em um como em outro se constata a predominância de sentimentos sombrios. Em Freud a vaidade profissional, e em Jung, o orgulho religioso. Este, porém, ainda que ocultamente, por causa da religião e do casamento, passa a utilizar-se de técnica até então inusitada, pelo menos na área médica. Estuda o caso de Sabina recorrendo ao sexo, inclusive com práticas sadomasoquistas: (durante o ato sexual ele a agredia com palmadas e cintadas, e ambos sentiam prazer).

É interessante ressaltar que, pelo menos o discurso de Jung se assemelha ao de Aldous Huxley. Quando este contesta o mundo real no livro “Admirável Mundo Novo”. O ideólogo aponta um panorama organizacional de sociedade que difere bastante de tudo que tem sido presenciado e noticiado. Na perspectiva por ele apresentada seriam extintas as convenções sociais: famílias, fidelidade entre parceiros sexuais, possibilidade de oscilação entre classes, ascensão e declínio de indivíduos e empresas e restrições referentes ao uso de drogas. No Mundo Novo existiria o condicionamento pré-natal, ensino durante o sono e a euforia provocada pelos entorpecentes.

Freud não pensava outra sociedade, ele cogitava e investia teoricamente na compreensão daquela que conhecia. Jung e Huxley, ainda que percorrendo caminhos distintos, vislumbravam o que poderia, segundo eles, se tornar realidade. Aceitar-se como é ou direcionar a vida para a incorporação do vir a ser é o dilema-chave tanto do filme como do livro. Ponderando o assunto,atribui-se importância acadêmica e psicanalítica sem precedentes para os dois posicionamentos.

Outrossim, precisa-se consolidar antes da busca pelo vir a ser, a compreensão do que já se tem como concreto. E, atentando para a comparação entre os pontos de vista abordados, emerge a seguinte interrogação: Em qual situação as pessoas permitem a expressão do espírito criador, e expõem livremente anseios íntimos sem recalque ou censura alheia? E, finalizando, desponta mais um questionamento: Em que modelo existencial o ser humano sente-se verdadeiramente feliz consigo mesmo e com a condição social em que está inserido, enquanto vida, cidadão e ser pensante e participante?

“… um pedaço de carne”

Por Magno Viana

Ao retratar no seu mundo ideológico o sujeito e o objeto, o escritor Aldous Huxley, o faz de forma tão intensa que confunde e, até mesmo promove a fusão dos dois conceitos.

Percebe-se na dialética da personagem Bernard Marx com seus interlocutores, aparente pasmo daquele por causa da naturalidade destes com relação à liberdade. Acreditam que ser livre no sentido verdadeiro do termo é fazer o que se imagina, sente ou percebe necessário.

Viver a busca e consumação das experiências humanas sem restrições é o ápice da própria existência. Desta forma, Admirável Mundo Novo é a categórica imagem revelada do universo da satisfação sensorial.

Todavia, Marx contesta as ideias e condutas dos patrícios, as quais, entretanto, perpassam todo o conteúdo do livro. Ele afirma que a mulher poderia ser observada como sujeito, um ser personalizado.

Huxley racionaliza, mecaniza e petrifica as relações humanas, objetivando a felicidade, que segundo ele, pode ser propiciada por uma condição de vida atrelada à organização social, efetivação de anseios, promiscuidade, novos padrões de comportamento e extinção dos núcleos familiares.

O escritor nos remete a um mundo cujos habitantes primam ser despojados de sensibilidade, fraqueza e falibilidade. O romantismo é banido. Homens e mulheres fazem sexo com quem e quando quiserem. Creem na tese “… cada um pertence a todos. HUXLEY, p.84”.

Assim sendo, não existem limitações na esfera inter-relacional. Todos os homens passam a ter autonomia para fazer o que anseiam com os semelhantes.

Mustafá Mond, uma das personagens da obra, é o protótipo da realidade que Huxley considera possível. Ao asseverar que não existe impedimento que não possa ser desfeito, Mond prefigura o homem-deus, trabalhado cuidadosa e sutilmente no Mundo Novo desenhado no livro.

Seres femininos também não se incomodam em ser alvo dos desejos sexuais desenfreados dos masculinos. Mesmo por que, no ponto de vista das fêmeas, o crescimento advindo dessa experiência será para ambos.

Lenina em um diálogo com Fanny reclama da falta de variedade de parceiros sexuais “… estou começando a sentir um pouco de tédio por não ter todos os dias outra pessoa, que não seja Henry. (Henry Foster), p. 85″

A mente destoante na história em apreço se manifesta nas palavras e semblante de Bernard. “Falam nela (na mulher), como se fosse um pedaço de carne. p.87”. Ele empalidece depois de ouvir o que os concidadãos pronunciam acerca do tipo de relação que o macho deve ter com a mulher. “Hei de experimentá-la, certamente. Na primeira oportunidade. p. 85”.

Uma pergunta que ressoa diante da elaboração teórica de tal forma de vida, deveras surpreendente, permissiva e isenta de afetividade, é se de fato haverá consolidação e durabilidade de relações que se desenvolvem descomprometidas de todos os tipos de laços. Sejam eles, fraternais, conjugais ou familiares.

Origina-se em seguida um outro questionamento tão pertinente quanto o primeiro: Será que a sociedade do século XXI está caminhando para o planeta previsto por Huxley, ou ao invés de estar na direção desse horizonte, ela não já está residindo nele e o recebendo em doses homeopáticas, filosóficas, sociais, religiosas e políticas?