Como educar nossos filhos?

Por Natália Sper

Vivemos a Era da Tecnologia, onde a Revolução Midiática trouxe transformações no comportamento, na forma de convivência, além de mudanças significativas no contexto cultural, social e econômico. Vivemos a transição de uma sociedade analógica para a digital.

No entanto, esse novo paradigma é a realidade para muitas pessoas (eu diria para a população jovem que já nasceu inserida nesse contexto), mas é um desafio para diversas outras pessoas, antes acostumadas a modelos de vida mais simples (pois, na avaliação dessa parcela, esse papo de tecnologia é algo deveras complicado). Inseridos nesse novo mundo, fica a pergunta: como educar nossos filhos?

As crianças nascidas nessa era estão habituadas a outro modo de vida, seus gostos, preferências não fazem mais parte daqueles acostumados por seus pais. Hoje essas crianças e jovens preferem uma tela de computador a bater uma bola, escolhem pela televisão ao invés de soltar pipas; e isso não é só uma questão de gosto, mas é o que lhes é oferecido.

A problemática não está nessas mudanças de atividades, pois muitas coisas alteram-se de geração para geração, o problema é como as crianças consomem esse entretenimento e como se distanciam de laços afetivos, como supervalorizam aspectos digitais e desconhecem realidades. Os pais não conseguem mais dialogar com seus filhos, não conseguem compreender o mundo que estão adaptados, não sabem mais qual é o jeito certo de agir para uma educação eficiente e de resultados.

Será, portanto que Aldous Huxley já previa essa sociedade tecnológica quando escreveu “Admirável Mundo Novo”, em 1932? E sua ideia de um mundo dividido por castas, pessoas concebidas em tubos de ensaio, a perda do espaço público, o declínio da instituição família (uma das mais poderosas desde a antiguidade) e a valorização pelo trabalho, já foi uma análise, ou melhor, um alerta, do que estava por vir?

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Capitalismo e Tecnologia: Aliados perfeitos

Por Natália Sper

Desde que o homem se entende por homem e aprendeu a conviver em sociedade, ele precisou rever conceitos e formas de convivência. Por conta disso, para promover um lugar mais organizado, criou as leis, que a princípio, pareciam ser a medida exata para garantir uma comunidade livre de problemas e desigualdades. Após criar as leis era preciso criar uma instituição que pudesse organizá-las, eis que surge o Estado. Porém, a própria noção de Estado já fere a ideia de igualdade para todos, a partir do momento em que há uma divisão do poder, na qual uma parcela é responsável por determinar o que todos deverão fazer juntos ou não. Sendo assim, o espaço público, deveras vezes, fica comprometido e a própria ideia de “público”, equivocada. Levantando essa questão, é que o filósofo Jürgen Habermas, traz à tona a noção de “esfera pública”, que em resumo, se dá pela ação comunicativa e formação discursiva da opinião e da vontade.

No entanto, o conceito trazido por Habermas e debatido por diversas pessoas, entra em conflito e novas percepções de “esfera pública” são levantadas; e não só a esfera pública em si, mas também outras, como a esfera pública política e a esfera pública literária. Segundo, Jorge Almeida, em Mídia, Opinião Pública ativa e Esfera Pública democrática, “atualmente, não encontramos uma esfera pública como aquela descrita inicialmente por Habermas. Ou seja, a reunião de um público, formado por pessoas privadas, que constroem uma opinião pública com base na racionalidade do melhor argumento, e fora da influência do poder político e econômico”. Portanto,  podemos dizer que a tese defendida por Habermas está um pouco “ultrapassada”, e de acordo com Almeida, isso devido “à burocratização e mercadorização crescente do espaço público, à manipulação e ao papel que a mídia e marketing exercem neste sentido”.

Com a Revolução Tecnológica e Midiática, os veículos de comunicação passam a exercer um papel fundamental na sociedade e, consequentemente, no que Habermas chama de “esfera pública literária”. Contudo, com o modelo capitalista e o consumismo como parte ativa da vida das pessoas, a esfera pública literária experimenta o início de seu declínio, afinal como o próprio filósofo declarou na obra Mudança Estrutural da Esfera Pública, “as leis do mercado já penetram na substância das obras, tornando-se imanentes a elas como leis estruturais”.

Podemos ampliar o efeito dessa mudança e acrescentar outro elemento que vem contribuindo para a alteração da esfera pública literária: a internet. Pois, sendo um arranjo comunicacional de redes digitais, ela propicia uma desintermediação, o que está alterando a esfera pública e a comunicação com as instituições de poder.

Portanto, agora podemos citar a internet como um espaço de deliberação, onde as pessoas podem expor suas opiniões e vontades, além de discutirem sobre diversos temas. Verdadeiramente um espaço de conversação mútua, que está mudando a própria relação entre público e privado, a partir do momento em que qualquer pessoa tem poder para deliberar uma ideia e condições de dissipá-la em frações de segundo.

A maior alteração que a internet trouxe, e que foi possível graças ao sistema capitalista que impera nos dias de hoje, está na cadeia de valor. Pois, se antes os “mass midia” controlavam o conteúdo em 100%, no que diz respeito: 1) a produzir o conteúdo 2) manipular industrialmente o material (desde o papel até a impressão) e 3) distribuir o produto; hoje as tarefas são distribuídas. A internet detém R$ 2,4 trilhões, que são divididos em: 1) 60% para as empresas de acesso 2) 20% aos agregadores 3) 14% aos devices/softwares e 4) 7% a quem produz conteúdo.

Portanto, é válido discutir o quê a Revolução Tecnológica e Midiática, aliada ao sistema capitalista, trouxe de novo e ainda está trazendo, tanto no aspecto da mudança da esfera pública literária, como no futuro dos veículos tradicionais e dos jornalistas/repórteres, mas é fundamental que se promova uma discussão ao redor da maneira como está se dando a cadeia de valor, a forma como as pessoas estão consumindo informações e como essas estão sendo vendidas, pois isso revela um novo paradigma, que reúne aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais.