A sugestibilidade e a recompensa em “Admirável Mundo Novo” e no consumo

É possível “não cair em tentação”?

Por Alessandra Rios

A sociedade do Admirável Mundo Novo é a sociedade da superorganização. Essa ordem é possível graças a alguns métodos de controle.

O primeiro deles é o da uniformização genética. Os indivíduos desta sociedade são divididos em castas superiores e inferiores, onde os das castas superiores são biologicamente mais desenvolvidos e concebidos para realizar os trabalhos mais minuciosos e que exigem um determinado raciocínio; os das castas inferiores são criaturas quase subumanas, que receberam menor quantidade de oxigênio no cérebro, ainda enquanto embriões e, portanto, são menos desenvolvidos, sendo designados aos trabalhos mais operacionais. Ambos, porém, são concebidos com o conceito de “máquinas-padrão” na operação de outras “máquinas-padrão”.

Além do tratamento pré-natal, ainda existe o controle pós-natal, nomeado por Aldous Huxley como “hipnopédia”, que consiste na instrução hipnótica durante o sono.

O objeto principal dessa discussão, porém, é a pílula “soma”. Quase como o “êxtase” de nossos dias atuais, a “soma” é a “religião”, a recompensa do Admirável Mundo Novo. Consumidores de altas doses dessa pílula, os indivíduos da “admirável sociedade” são transportados para um mundo de ilusão e alucinação. Neste mundo não há tristeza, sofrimento ou dor. Tão pouco, reclamações e questionamentos. E é assim, por meio desses controles, que se obtém dos indivíduos referidos o comportamento considerado desejável, ideal.

Em “Regresso ao Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley fala sobre a sugestibilidade, que é a capacidade de se tornar suscetível a ideias e opiniões de terceiros. Ora, a sugestibilidade não é algo de todo ruim. Segundo o próprio autor, a convivência social só é razoavelmente possível porque existe um mínimo de sugestibilidade e isso faz com que as pessoas cedam, uma vez ou outra, à opinião e ideias de outros, negociem e cheguem a acordos. O problema, assim como tudo na vida, está quando não existe um meio termo entre a recusa total à sugestibilidade e à submissão em excesso.

Sugestibilidade e recompensa são, portanto duas condições intimamente ligadas e extremamente eficazes no controle de uma sociedade. Se o Big Brother de 1984, de George Orwell usou do castigo para controlar os seus “súditos”, a Fordeza” do Admirável Mundo Novo foi bem mais esperta em conseguir o que queria através do “mimo” e parece que o maravilhoso mundo da publicidade também aprendeu a sua lição.

Para os criativos publicitários, o céu já não é mais o limite e a compra da felicidade está a poucos centímetros entre o bolso e a carteira. Promessa e recompensa são palavras mágicas que transcendem os produtos e serviços e passam a pairar sobre
o “Monte Olimpo” das marcas.

Alguns dos slogans mais famosos de todos os tempos podem afirmar:

American Express – Você reconhecido.

Arno– Você Imagina, Clic, a Arno Faz.

Band-aid – Cura 2 vezes mais rápido.

Banco do Brasil – O tempo todo com você.

Bradesco – Colocando Você Sempre à Frente.

Claro – Claro que você tem mais.Chevrolet – Conte Comigo.

Directv – O mundo é seu.

Havaianas – O mundo a seus pés

Air France – Fazendo do céu o melhor lugar da terra.

Doril – Tomou Doril, a dor sumiu.

Diante das infinitas possibilidades de consumo, nossa resistência parece ser testada o tempo todo. A promessa em “sermos reconhecidos”, de “sermos colocados sempre à frente” e de termos o mundo inteiro a nossos pés“ coloca nosso limite de sugestibilidade à prova e a American Express, o Bradesco e as Havaianas no altar de nossas idolatrias. Nos sentimos amados, queridos, cuidados. Gostamos de ser bajulados, acariciados pelas nossas marcas preferidas.

É amor à primeira vista. Negociamos, compramos, fazemos mil prestações, nos enfiamos em dívidas e quando partimos para a real experiência do consumo, se perde o encanto, o amor acaba. E aquela mesma marca que se derramou de amores por nós, nos prometendo estar o tempo todo conosco, nos dá agora as costas.

É na desilusão que nos perguntamos: é possível rogar ao mundo capitalista que não nos deixe cair em tentação diante das seduções de adotarmos a sugestibilidade extrema como nossa identidade? E se cairmos, será que um band-aid será o suficiente para tapar e curar os buracos vazios deixados pelas frustrações do consumismo?

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Entre o Ser e Ter na era do consumismo

Por Natália Sper

Qual marca você está usando? Em pleno século XXI, onde o consumismo tornou-se o oitavo pecado capital, nos deparamos com esse tipo de pergunta constantemente – isso quando não somos nós mesmos que a fizemos.

A marca ganhou vida própria e possuí-la é tão, quanto mais importante que consumir o próprio produto, e mais, possuí-la é ganhar reconhecimento perante a sociedade. Muitas vezes, em muitos lugares, não somos mais reconhecidos pelo curso que concluímos, pela universidade que prestamos, pelo trabalho que desenvolvemos, ganhamos poderes pela roupa, o carro, o perfume que utilizamos. Não se vê mais a essência do ser, mas a aparência.

Deixamos de ser homem e nos tornamos coisas: “já não me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente”, já dizia Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Eu, etiqueta”.

Marcas viram identidades, bens de consumo, necessidades, modos de vida – o que altera uma cadeia de geração, de costumes, de crenças. Marcas viram empresas, empresas giram negócios, negócios movimentam o mundo; e naturalmente somos inseridos no contexto, e imperceptivelmente (ou não), fomos totalmente comprados por uma ideia, uma marca, uma empresa. “Não se é uma marca de qualidade, mas pode transformar-se numa empresa aérea, numa linha de móveis, num restaurante temático” (KLEIN Naomi, 2004).

Na era tecnológica, esse consumo desenfreado e a busca incansável pelo ter, tornaram-se ainda maiores, pois a possibilidade de concorrência, de produzir produtos em grande escala, instigou o ser humano a se aplicar na cultura do consumismo, anulando assim outras formas de cultura: a da aproximação e reconhecimento.

Portanto, não pretendo propor uma reflexão tão radical que anule a ideia de consumo – até porque no sistema em que vivemos negar o consumo, é negar a si mesmo – e o ato de consumir é um direito humano. No entanto, é necessário que se promova uma discussão sobre o consumo desenfreado: o verdadeiro consumismo. Pois, este modelo vem causando alterações irreversíveis na cadeia de valor, pessoas deixam de ser para ter. Perdem-se as identidades, trocam-se os valores, anulam-se a essência.

“Giorgio
Eu tive um sonho risonho e terno
Sonhei que eu era um anjo elegante no inferno
Giorgio
Eu sinto medo na longa estrada
O medo é a moda desta triste temporada
Giorgio
Tá tudo assim nem sei tá tão estranho
A cor dessa estação é cinza como o céu de estanho” (Zeca Baleiro)