A ilusão de que tudo está online

Por Renato Silvestre

Boa parte de nós, que passamos horas à frente de computadores ou de outros tipos de interfaces tecnológicos como tablets e modernos celulares, com o tempo parecemos nos tornar dependentes de toda essa parafernália. Esta dependência tende a limitar nosso campo de visão, criando a falsa certeza de que tudo o que acontece no mundo está traduzido para o campo online, para o universo digitalmente conectado.

Segundo dados revelados pelo Ibope Nielsen Online neste mês, no Brasil, apenas 82 milhões de pessoas tem acesso à internet. Ou seja, em um país com mais de 190 milhões de pessoas como é o nosso, nem mesmo a metade da população tem na internet um mecanismo de comunicação cotidiano. Obviamente, poderíamos ir mais a fundo ainda nestes números que notaríamos que grande parte destes 82 milhões de pessoas não a usam com a finalidade de produzir informação ou compartilhar algo a respeito de suas vidas cotidianas.

Uma prova disso é que o número de usuários brasileiros do Facebook, por exemplo, de acordo com a Socialbakers, em maio deste ano, era de 46 milhões pessoas. Claro que é um número grandioso, que inclusive confere ao Brasil o segundo lugar no ranking de países usuários na rede social de Mark Zuckerberg, mas nos dá a noção exata do quanto de vida “ainda” acontece longe da internet e das redes sociais conectadas.

Enquanto clicamos desesperadamente, teclamos ensandecidos e olhamos fixos para telas cada vez mais finas, o mundo gira e uma boa parte da história passa pela nossa janela. Mais da metade da população ainda não adentrou ao campo virtual de comunicação e isso não pode ser esquecido.

Certamente há na internet hoje um bom retrato do brasileiro do século XXI, no entanto, contraditoriamente, pelo interior deste país ainda há uma parcela significativa da população que mal saiu do século XIX. Fato é que de 2003 até agora mais de 12 milhões de brasileiros foram atendidos pelo Programa do Governo Federal “Luz para Todos”, que leva energia elétrica para os locais de mais difícil acesso do país. Ainda assim, segundo dados do Ministério de Minas e Energia, até 2014 mais 400 mil ligações serão realizadas.

A modernidade tecnológica que nos permite comunicar com tudo e com todos, saber de tudo sem saber de coisa alguma, ir para onde quiser sem sair do lugar é fantástica, mas em certa medida serve como droga alucinógena que ao mesmo tempo que expande nosso conhecimento tende a nos acorrentar a “máquinas maravilhosas” e a ilusão de que vivemos no mais espetacular e “admirável” dos mundos.

Ainda que possamos construir identidades complexas e possamos construir na internet um campo de discussão que perpasse o espaço virtual e permeie nossa realidade, podendo ser usada, inclusive, como instrumento de aglutinação e de organização de pessoas em torno das mais diferentes nobres causas, não podemos ignorar o fato de que a sua existência depende da existência física de quem a faz, ou seja, de seus usuários, programadores, técnicos e leigos navegantes.

Fica claro que nem tudo está online, nem todo mundo está conectado. Se queremos conhecer de fato um pouco mais sobre nosso mundo real é preciso sair da toca, tirar os dedos de teclas e telas e levantar da cadeira. Há um mundo lá fora, basta abrir os olhos!

Fotografia digital: A tecnologia como o fim da criação artística e a nossa relação com a imagem

Por Alessandra Rios

Já foi a época em que a arte de fotografar tinha o seu glamour, ou melhor dizendo, era “mais artística”. Com a chegada das máquinas fotográficas digitais, especialmente as mais modernas, acopladas ao celular, o conceito de fotografar e a nossa relação com as imagens mudou no mundo inteiro. Para sempre.

A fotografia surgiu no inicio do século XIX, e era dedicada, anteriormente, a eternizar as famílias. Tirar uma foto, naqueles tempos, era um grande evento: os adultos e crianças tomavam banho, numa época em que a higiene diária não fazia parte de seus hábitos; eram escolhidas as melhores roupas; as mulheres escovavam os cabelos, os homens engraxavam os sapatos. Cada detalhe era perfeitamente cuidado, afinal, o registro ficaria para a história.

Com o tempo, a máquina fotográfica foi se popularizando e a tecnologia se tornando mais barata e acessível às pessoas. Ainda com a função de registrar momentos, as famílias adquiriam máquinas fotográficas e filmes de 12, 24 ou 36 poses – o que já era considerado um exagero – para eternizar eventos considerados importantes, como a festa de aniversário dos filhos ou uma viagem de férias.

Eis que um belo dia, a tecnologia permite o advento da máquina fotográfica digital.
Antes, a dúvida entre a escolha de um filme em PB (preto e branco) ou colorido pode
agora ser resolvida na própria máquina digital, ao girar um botão para lá ou para cá.
O novo suporte da fotografia já não é mais o papel e sim os HD’s dos computadores
cada vez mais abarrotados, esperando pela revelação de álbuns que nunca ocorre.

Na fotografia digital, o filme já não é mais o limitador da quantidade de registros como era na analógica. Não gostou da foto? Nem precisa apagar; faça outra e mais outra…
e ainda outra. Quantas forem necessárias (ou desnecessárias).

E, em meio à facilidade de apagar e refazer, editar e reeditar as fotografias, os fotógrafos (tanto amadores, quanto profissionais) estão apontando suas máquinas para todos os lados, sem um mínimo de senso crítico e sem parar para perguntar o que se quer fotografar. O foco da fotografia deixa de ser os eventos importantes e passa a ser qualquer coisa que eu deseje, principalmente eu mesmo, com meus auto-retratos. Resultado: milhares de fotos repetidas e muitas vezes desprovidas de sentido que, quando não esquecidas em uma pasta qualquer do HD, por excesso de imagens acabam gerando desinformação. Lembramos, aqui, da velha teoria da Iconofagia, de Norval Baitello Junior: “somos nós quem devoramos as imagens ou são elas que nos devoram”?

O problema maior surge quando a falta de senso crítico parte para o campo profissional. Com as inúmeras possibilidades técnicas da máquina fotográfica, há quem ande por aí brincando de ser fotógrafo e pior, há muitos comprando essa ideia! O dom artístico de compor e criar a imagem fotográfica se confunde com as possibilidades dos “efeitos mágicos” que as câmeras são capazes de criar. Perde-se a referência do que é e do que não é artístico.

Máquinas fotográficas cada vez mais avançadas com controles automáticos aperfeiçoados, softwares de edição capazes de controlar brilho e contrastes, saturação, efeitos de borda e tantas outras coisas parecem fazer milagres e tem servido de armadilha até mesmo para os fotógrafos profissionais, além de cegar muitos para os limites entre o profissional e o amador e entre o artístico e o esdrúxulo tecnológico. Isso se nota, principalmente, com o uso das máquinas
fotográficas acopladas aos iPads, iPhones etc, onde câmera está praticamente em todos os lugares e o tempo todo ao alcance do usuário e da rede, pois o compartilhamento dessas imagens, sobretudo nas redes sociais, alcançou uma velocidade surpreendente e é outro fenômeno a ser observado.

Não é o caso de assumir uma posição partidária ou apartidária ao lado da máquina fotográfica digital e softwares de edição. A verdade é que a fotografia digital mudou, irreversivelmente, a nossa forma de nos relacionarmos com as imagens. E aí se faz necessário compreender: nesse jogo, quem é funcionário de quem. As máquinas são nossas funcionárias ou nós é quem somos funcionárias delas? Esse é o dilema de Vilém Flusser, em sua Filosofia da Caixa Preta.

A fotografia digital tem seus inúmeros benefícios e seria ingenuidade deixar de reconhecê-los, a questão é: estamos fazendo da máquina fotográfica e dos programas de edição o meio ou o fim da criação artística?

Como educar nossos filhos?

Por Natália Sper

Vivemos a Era da Tecnologia, onde a Revolução Midiática trouxe transformações no comportamento, na forma de convivência, além de mudanças significativas no contexto cultural, social e econômico. Vivemos a transição de uma sociedade analógica para a digital.

No entanto, esse novo paradigma é a realidade para muitas pessoas (eu diria para a população jovem que já nasceu inserida nesse contexto), mas é um desafio para diversas outras pessoas, antes acostumadas a modelos de vida mais simples (pois, na avaliação dessa parcela, esse papo de tecnologia é algo deveras complicado). Inseridos nesse novo mundo, fica a pergunta: como educar nossos filhos?

As crianças nascidas nessa era estão habituadas a outro modo de vida, seus gostos, preferências não fazem mais parte daqueles acostumados por seus pais. Hoje essas crianças e jovens preferem uma tela de computador a bater uma bola, escolhem pela televisão ao invés de soltar pipas; e isso não é só uma questão de gosto, mas é o que lhes é oferecido.

A problemática não está nessas mudanças de atividades, pois muitas coisas alteram-se de geração para geração, o problema é como as crianças consomem esse entretenimento e como se distanciam de laços afetivos, como supervalorizam aspectos digitais e desconhecem realidades. Os pais não conseguem mais dialogar com seus filhos, não conseguem compreender o mundo que estão adaptados, não sabem mais qual é o jeito certo de agir para uma educação eficiente e de resultados.

Será, portanto que Aldous Huxley já previa essa sociedade tecnológica quando escreveu “Admirável Mundo Novo”, em 1932? E sua ideia de um mundo dividido por castas, pessoas concebidas em tubos de ensaio, a perda do espaço público, o declínio da instituição família (uma das mais poderosas desde a antiguidade) e a valorização pelo trabalho, já foi uma análise, ou melhor, um alerta, do que estava por vir?

Qual é a próxima parada?

Por Natália Sper

Por vezes, me pergunto, para onde caminha a humanidade?

Cada vez mais pautada pelo mundo tecnológico, pelos assuntos disponíveis nas redes sociais, pelos vídeos postados no Youtube, as relações humanas tendem a se desfalecer ou para alguns – com uma visão não tão apocalíptica – o que se está em jogo é somente uma reestruturação das relações: não perdem-se os vínculos, apenas alteram-se.

Mas, o fato é que nessa “Era Digital” o mundo, as pessoas, os comportamentos estão mudando. Alguns defendem a ideia de que o caminho é positivo e o progresso, necessário e inevitável! Para outros, o regresso é absoluto e evidente, os pontos são cada vez mais negativos!

O que pretendo propôr, não é uma análise dualista entre “bom e ruim” (até porque, acredito que isso seja algo bem particular), mas o que busco é trazer para reflexão o que essas mudanças estão causando nas relações humanas, na perda da identidade, na era do consumismo e na busca pela perfeição inalcançável.

Aproveito o momento e recomendo – para quem não assistiu – o filme da Walt Disney, Wall-E, que em uma linguagem simples e delicada, traz à tona esses e outros (importantes) temas.

Atualmente o que temos é uma alteração na forma de convívio, uma perda do espaço público e uma alteração na forma de consumir/produzir informação. Isso a curto e médio prazo pode parecer natural, mas me questiono: a longo prazo, qual cenário teremos? Afinal, os vínculos se alteram, mas não se estreitam. Para onde caminha a humanidade? Você sabe qual é a próxima parada?