Como educar nossos filhos?

Por Natália Sper

Vivemos a Era da Tecnologia, onde a Revolução Midiática trouxe transformações no comportamento, na forma de convivência, além de mudanças significativas no contexto cultural, social e econômico. Vivemos a transição de uma sociedade analógica para a digital.

No entanto, esse novo paradigma é a realidade para muitas pessoas (eu diria para a população jovem que já nasceu inserida nesse contexto), mas é um desafio para diversas outras pessoas, antes acostumadas a modelos de vida mais simples (pois, na avaliação dessa parcela, esse papo de tecnologia é algo deveras complicado). Inseridos nesse novo mundo, fica a pergunta: como educar nossos filhos?

As crianças nascidas nessa era estão habituadas a outro modo de vida, seus gostos, preferências não fazem mais parte daqueles acostumados por seus pais. Hoje essas crianças e jovens preferem uma tela de computador a bater uma bola, escolhem pela televisão ao invés de soltar pipas; e isso não é só uma questão de gosto, mas é o que lhes é oferecido.

A problemática não está nessas mudanças de atividades, pois muitas coisas alteram-se de geração para geração, o problema é como as crianças consomem esse entretenimento e como se distanciam de laços afetivos, como supervalorizam aspectos digitais e desconhecem realidades. Os pais não conseguem mais dialogar com seus filhos, não conseguem compreender o mundo que estão adaptados, não sabem mais qual é o jeito certo de agir para uma educação eficiente e de resultados.

Será, portanto que Aldous Huxley já previa essa sociedade tecnológica quando escreveu “Admirável Mundo Novo”, em 1932? E sua ideia de um mundo dividido por castas, pessoas concebidas em tubos de ensaio, a perda do espaço público, o declínio da instituição família (uma das mais poderosas desde a antiguidade) e a valorização pelo trabalho, já foi uma análise, ou melhor, um alerta, do que estava por vir?

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O Eu realizado?

Por Magno Viana

Valére Tasso personagem da atriz espanhola Belén Fabra, no filme “Diário Proibido”, estreado em setembro de 2009, sob a direção de Christian Molina, é uma moça que teve bastante afinidade com a avó Granny, personagem de Geraldine Chaplin, filha do cineasta Charles Chaplin. E, nos últimos momentos da vida esta faz uma retrospectiva de tudo o que viveu e descobre que, apesar de ser admirada pela neta por ter vivido uma linda e longa história de amor com o marido, se pudesse voltar no tempo deixaria outro enredo para os descendentes.

Ela afirma que ao invés de ter conhecido um único homem, gostaria de ter sido possuída por vários. Realizaria diversos desejos e provaria muitas experiências. Valére observa Granny atenta e reverentemente, como se por trás da revelação houvesse mensagens subliminares fortes e indispensáveis. Com o subsequente falecimento da avó, Valére conclui que o melhor que ela tem a fazer é viver realizando os desejos mais íntimos. Ela se revela uma verdadeira ninfomaníaca. Desiste de repetir a história dos antepassados, e passa a contrair relações sexuais com muitos parceiros.

Depois de algum tempo tem a oportunidade de conhecer um empresário bem-sucedido que se apaixona por ela e a pede em casamento. Ao ser seduzida pelo intenso romantismo, Valére se casa. Pela vasta experiência sexual que ela demonstra ter, o marido fica extremamente enciumado, e transforma a vida de ambos, principalmente a dela em um pesadelo. Quando se separa dele ela resolve ser prostituta. Tinha curiosidade sobre este universo, e também ia fazer o que mais gostava, sendo beneficiada financeiramente.

Ao começar a fazer programas ela se envolve, mas consegue mostrar competência. É humilhada por cliente, e descobre que chegou a hora de deixar de ser marafona. Valére é uma mulher que vive a liberdade da forma que a concebe. Fazendo o que considera certo, e até quando convêm. Sofre mas, não tem pena de si mesma. Em um brusco momento de insanidade pensou que o suicídio fosse o escape ideal para se livrar do ex-marido que não aceita a separação. Contudo resolve lutar pela vida sem constrangimento nem mediocridade, muito menos observando paradigmas sociais.

Uma história para ser contada e analisada, acredita-se, sem preconceito nem julgamento de valor. Todavia, para uma repentina reflexão, talvez caiba uma pergunta: Até onde a liberdade torna o ser humano realmente livre? Não se sabe ao certo se as mulheres mencionadas no livro “Admirável Mundo Novo”, 1932, do escritor britânico Aldous Huxley, assim como Valére, sentem-se completas com a permissividade a que se outorgam. Isso também pode ser de menos importância investigando os dois casos dentro dos contextos nos quais ocorrem: no filme existe uma ninfomaníaca cheia de curiosidade, no livro apresenta-se uma sociedade onde tudo é permitido.

A obra de Huxley descreve, entre outras coisas, o comportamento de duas personagens femininas denominadas Lenina e Fanny Crowne. Elas pensam que é terminantemente vedado o uso do termo proibir. Fazem sexo com uma quantidade diversificada de homens, pois, acreditam que a promiscuidade é uma virtude absolutamente necessária aos seres civilizados. “O elevador estava cheio de homens… e a entrada de Lenina foi acolhida com… sorrisos amistosos. A jovem [já]… havia passado a noite com quase todos eles. (HUXLEY, p. 103)”.

O escritor mostra que os homens também se permitem viver uma intensa promiscuidade, o que não impressiona tanto, senão por um caso citado, no qual uma personagem supera até mesmo um monarca dos tempos bíblicos chamado Salomão. Se este teve 1000 (mil) mulheres durante toda a vida, Helmholtz Watson, um campeão de Pelota-Escalátor, é declarado como possuidor da fama de amante infatigável, por ter feito sexo com 640 (seiscentas e quarenta mulheres) em menos de quatro anos (p.116).

No filme e também no livro, percebe-se o desejo de florescimento do Eu. Eu enquanto homem, mulher, ser humano, ser apreciador dos desejos libidinosos, com qualidades e defeitos, vontades e manias. Eu totalmente desprendido de dogmas e recalques, à procura, provavelmente, da própria essência. A busca do âmago, talvez seja permanente, ainda que não ininterrupta. O caminho para a descoberta pode ser múltiplo ou específico, a depender do perfil de cada examinador.

As personagens citadas fizeram o que reputaram melhor. Desta forma, a coragem as transforma em seres ativos dentro de determinado circuito da existência. Não se pode asseverar que foram mais felizes que os menos audazes. Se a oportunidade de conquista da auto realização for única, e for comprovado que o conceito de satisfação independe do certo ou errado, posto ser esse julgamento, realmente subjetivo. Consequentemente todos agarraram a felicidade por terem saciado o desejo.

A sugestibilidade e a recompensa em “Admirável Mundo Novo” e no consumo

É possível “não cair em tentação”?

Por Alessandra Rios

A sociedade do Admirável Mundo Novo é a sociedade da superorganização. Essa ordem é possível graças a alguns métodos de controle.

O primeiro deles é o da uniformização genética. Os indivíduos desta sociedade são divididos em castas superiores e inferiores, onde os das castas superiores são biologicamente mais desenvolvidos e concebidos para realizar os trabalhos mais minuciosos e que exigem um determinado raciocínio; os das castas inferiores são criaturas quase subumanas, que receberam menor quantidade de oxigênio no cérebro, ainda enquanto embriões e, portanto, são menos desenvolvidos, sendo designados aos trabalhos mais operacionais. Ambos, porém, são concebidos com o conceito de “máquinas-padrão” na operação de outras “máquinas-padrão”.

Além do tratamento pré-natal, ainda existe o controle pós-natal, nomeado por Aldous Huxley como “hipnopédia”, que consiste na instrução hipnótica durante o sono.

O objeto principal dessa discussão, porém, é a pílula “soma”. Quase como o “êxtase” de nossos dias atuais, a “soma” é a “religião”, a recompensa do Admirável Mundo Novo. Consumidores de altas doses dessa pílula, os indivíduos da “admirável sociedade” são transportados para um mundo de ilusão e alucinação. Neste mundo não há tristeza, sofrimento ou dor. Tão pouco, reclamações e questionamentos. E é assim, por meio desses controles, que se obtém dos indivíduos referidos o comportamento considerado desejável, ideal.

Em “Regresso ao Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley fala sobre a sugestibilidade, que é a capacidade de se tornar suscetível a ideias e opiniões de terceiros. Ora, a sugestibilidade não é algo de todo ruim. Segundo o próprio autor, a convivência social só é razoavelmente possível porque existe um mínimo de sugestibilidade e isso faz com que as pessoas cedam, uma vez ou outra, à opinião e ideias de outros, negociem e cheguem a acordos. O problema, assim como tudo na vida, está quando não existe um meio termo entre a recusa total à sugestibilidade e à submissão em excesso.

Sugestibilidade e recompensa são, portanto duas condições intimamente ligadas e extremamente eficazes no controle de uma sociedade. Se o Big Brother de 1984, de George Orwell usou do castigo para controlar os seus “súditos”, a Fordeza” do Admirável Mundo Novo foi bem mais esperta em conseguir o que queria através do “mimo” e parece que o maravilhoso mundo da publicidade também aprendeu a sua lição.

Para os criativos publicitários, o céu já não é mais o limite e a compra da felicidade está a poucos centímetros entre o bolso e a carteira. Promessa e recompensa são palavras mágicas que transcendem os produtos e serviços e passam a pairar sobre
o “Monte Olimpo” das marcas.

Alguns dos slogans mais famosos de todos os tempos podem afirmar:

American Express – Você reconhecido.

Arno– Você Imagina, Clic, a Arno Faz.

Band-aid – Cura 2 vezes mais rápido.

Banco do Brasil – O tempo todo com você.

Bradesco – Colocando Você Sempre à Frente.

Claro – Claro que você tem mais.Chevrolet – Conte Comigo.

Directv – O mundo é seu.

Havaianas – O mundo a seus pés

Air France – Fazendo do céu o melhor lugar da terra.

Doril – Tomou Doril, a dor sumiu.

Diante das infinitas possibilidades de consumo, nossa resistência parece ser testada o tempo todo. A promessa em “sermos reconhecidos”, de “sermos colocados sempre à frente” e de termos o mundo inteiro a nossos pés“ coloca nosso limite de sugestibilidade à prova e a American Express, o Bradesco e as Havaianas no altar de nossas idolatrias. Nos sentimos amados, queridos, cuidados. Gostamos de ser bajulados, acariciados pelas nossas marcas preferidas.

É amor à primeira vista. Negociamos, compramos, fazemos mil prestações, nos enfiamos em dívidas e quando partimos para a real experiência do consumo, se perde o encanto, o amor acaba. E aquela mesma marca que se derramou de amores por nós, nos prometendo estar o tempo todo conosco, nos dá agora as costas.

É na desilusão que nos perguntamos: é possível rogar ao mundo capitalista que não nos deixe cair em tentação diante das seduções de adotarmos a sugestibilidade extrema como nossa identidade? E se cairmos, será que um band-aid será o suficiente para tapar e curar os buracos vazios deixados pelas frustrações do consumismo?

A “coisificação” humana no admirável não-lugar

Por Renato Silvestre

No livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, a sociedade retratada é composta por humanos que deixaram de ter significado como pessoas e passaram a valer pelo status, pelo que fazem, pela casta que ocupam. O livre pensar deu espaço ao controle total e a programação de conceitos e princípios artificiais.

Ter ideias ou refletir sobre algo no mundo desenhado pelo autor é algo expressamente proibido. Afinal, deixar que o mundo caminhe por si só “é muito perigoso e pouco lucrativo”. Toda a transformadora imprevisibilidade humana é abolida.

Em certa medida, podemos considerar a sociedade desenvolvida por Huxley como um verdadeiro campo de refugiados pós-moderno. Se no campo de refugiados as crianças já nascem com o fardo da miséria, da ausência de um lugar pra si, em Admirável Mundo Novo, a certeza do lugar previamente programado anula a existência do ser.

A sociedade programada e hiperestruturada define de maneira artificial a identidade das pessoas. Com identidades construídas cientificamente tornam-se nada mais do que peças do maquinário econômico e governamental. Como peças que são, se anulam enquanto seres humanos, para se tornarem coisas.

Trazendo à nossa realidade, vemos que infelizmente este processo de coisificação é algo recorrente na história da humanidade. Afinal qual era o olhar europeu com relação aos índios brasileiros nos anos seguintes ao “descobrimento”? Como os africanos eram vistos durante séculos de exploração e escravidão? E a Alemanha nazista, como tratava os judeus em seus campos de concentração?

De outra forma, mas não menos preocupante, é a maneira com que se desenvolvem os relacionamentos atualmente. Posso parecer piegas ou antiquado, mas vejo que há um olhar tremendamente tecnicista, que transforma pessoas em objetos.

Para muitos, atribuições como altura, peso, cor do cabelo, da pele, do olho, ou ainda, o tamanho das nádegas, são vistos não como proporções naturais do corpo, mas sim, como acessórios, como opcionais de um carro ou qualquer outra coisa. Na impossibilidade de ter o “produto” da forma desejada, trocam-se os acessórios ou devolve-se o produto. Será que temos data de validade também?

Expostos como em gôndolas dos supermercados, vivemos tentando mostrar que temos atributos melhores do que os demais. Tudo é muito veloz! Sem tempo para refletir, melhorar, planejar, o que vale é o imediatismo tolo, que prefere ter a sombra passageira das primeiras impressões do que a essência do ser, da sonhada realidade.

Em uma das definições de Marc Augé sobre o que são “não-lugares” ele diz que “são lugares onde não se inscrevem relações sociais duradouras”. Oras, se “coisificados” estamos, visivelmente classificados como produtos em vitrines, com a crescente dificuldade de viver em comunidade e a falência da família como estrutura formadora e pilar da sociedade, já não estaríamos, tal qual as personagens de Admirável Mundo Novo, vivendo em um grandioso “não-lugar”?

Vale a reflexão!

“… um pedaço de carne”

Por Magno Viana

Ao retratar no seu mundo ideológico o sujeito e o objeto, o escritor Aldous Huxley, o faz de forma tão intensa que confunde e, até mesmo promove a fusão dos dois conceitos.

Percebe-se na dialética da personagem Bernard Marx com seus interlocutores, aparente pasmo daquele por causa da naturalidade destes com relação à liberdade. Acreditam que ser livre no sentido verdadeiro do termo é fazer o que se imagina, sente ou percebe necessário.

Viver a busca e consumação das experiências humanas sem restrições é o ápice da própria existência. Desta forma, Admirável Mundo Novo é a categórica imagem revelada do universo da satisfação sensorial.

Todavia, Marx contesta as ideias e condutas dos patrícios, as quais, entretanto, perpassam todo o conteúdo do livro. Ele afirma que a mulher poderia ser observada como sujeito, um ser personalizado.

Huxley racionaliza, mecaniza e petrifica as relações humanas, objetivando a felicidade, que segundo ele, pode ser propiciada por uma condição de vida atrelada à organização social, efetivação de anseios, promiscuidade, novos padrões de comportamento e extinção dos núcleos familiares.

O escritor nos remete a um mundo cujos habitantes primam ser despojados de sensibilidade, fraqueza e falibilidade. O romantismo é banido. Homens e mulheres fazem sexo com quem e quando quiserem. Creem na tese “… cada um pertence a todos. HUXLEY, p.84”.

Assim sendo, não existem limitações na esfera inter-relacional. Todos os homens passam a ter autonomia para fazer o que anseiam com os semelhantes.

Mustafá Mond, uma das personagens da obra, é o protótipo da realidade que Huxley considera possível. Ao asseverar que não existe impedimento que não possa ser desfeito, Mond prefigura o homem-deus, trabalhado cuidadosa e sutilmente no Mundo Novo desenhado no livro.

Seres femininos também não se incomodam em ser alvo dos desejos sexuais desenfreados dos masculinos. Mesmo por que, no ponto de vista das fêmeas, o crescimento advindo dessa experiência será para ambos.

Lenina em um diálogo com Fanny reclama da falta de variedade de parceiros sexuais “… estou começando a sentir um pouco de tédio por não ter todos os dias outra pessoa, que não seja Henry. (Henry Foster), p. 85″

A mente destoante na história em apreço se manifesta nas palavras e semblante de Bernard. “Falam nela (na mulher), como se fosse um pedaço de carne. p.87”. Ele empalidece depois de ouvir o que os concidadãos pronunciam acerca do tipo de relação que o macho deve ter com a mulher. “Hei de experimentá-la, certamente. Na primeira oportunidade. p. 85”.

Uma pergunta que ressoa diante da elaboração teórica de tal forma de vida, deveras surpreendente, permissiva e isenta de afetividade, é se de fato haverá consolidação e durabilidade de relações que se desenvolvem descomprometidas de todos os tipos de laços. Sejam eles, fraternais, conjugais ou familiares.

Origina-se em seguida um outro questionamento tão pertinente quanto o primeiro: Será que a sociedade do século XXI está caminhando para o planeta previsto por Huxley, ou ao invés de estar na direção desse horizonte, ela não já está residindo nele e o recebendo em doses homeopáticas, filosóficas, sociais, religiosas e políticas?

Novo Mundo: mera utopia ou possibilidade?

Por Magno Viana

“Pois bem, agora nós temos juventude e prosperidade até o fim…” (HUXLEY, Aldous, 1932, p. 357).

Na obra intitulada Admirável Mundo Novo, do escritor britânico Aldous Leonard Huxley, pode-se constatar uma concatenação narrativa, cujo ápice é a recriação do Universo com todos os integrantes, desde os humanos até os objetos inanimados, em uma estrutura ambiental e social dotada de liberdade, permissividade e busca acompanhada da efetiva satisfação dos desejos, sejam eles pessoais, profissionais ou sexuais.

Na frase que inicia o texto pode-se perceber a fala da personagem Mustafá Mond, na qual ela afirma que a independência fora alcançada pelo homem, mediante a evolução conquistada, por intermédio dos recursos tecnológicos. O conhecimento, a ciência, a prática e as ferramentas, no ponto de vista de Mond, fizeram do ser criado um criador.

Criador do seu próprio Deus, ou de uma forma particular de vê-lo e contatá-lo, recriador de si mesmo, pelo fato de programar um estilo de vida condicionado e condicionante, no qual ele pode realizar tudo o que pensar e quiser, enfim, o homem agora é capacitado para planejar, recriar e administrar um novo mundo. A vida passa a ser coordenada para proporcionar a felicidade plena aos humanos, por meio da quebra das limitações, como as regras religiosas e sociais, a velhice, o medo, a pobreza e a morte. Ao atingir esse estágio o Ser se completa e se apossa do cabal estado de contentamento.

Deus seria concebido de acordo com a imaginação e vivências de cada pessoa, o homem teria poderes que o igualaria a um Ser Supremo, a tecnologia é o recurso disponibilizado, aprimorado e utilizado para o êxito imbatível dos recentes todo-poderosos. Os quais podem ser considerados assim, por estarem em uma condição de vida nunca vista na trajetória dos habitantes da Terra.

O autor transita de forma gradativa pelas possibilidades de superação das criaturas, em capacidade evolutiva constante e ininterrupta. Prima pela inovação, programação e conservação em harmonia com um tipo específico de organização da sociedade em classes planejadas antecipadamente nas categorias: Superiores e Inferiores. A primeira é constituída daqueles que governarão. Que serão dotados de inteligência em maior grau. E a segunda é composta pelos servos, que por sua vez, serão desfavorecidos pelos atributos intelectuais e privilégios sociais.

Ao criar personagens projetadas para prefigurar um novo formato de planeta e em uma inusitada percepção de vida, Huxley acredita numa dimensão existencial que está além do até então experimentado no cotidiano e nos laboratórios de pesquisas científicas. Ele se posiciona na história como um mentor atuante na esfera da psicociência, ao recorrer à ciência para estudar e investir na alteração dos mecanismos humanos desde o físico até as características psicológicas. Ao mesmo tempo em que acompanha o desenvolvimento, como produto de sua interferência, e analisa o andamento do processo, para possíveis novas intervenções.

Diante do apontamento de parâmetros emergentes das cogitações e exposições de ideias de um aparente visionário, será que o leitor pode apostar na veracidade e possibilidade da concretização do mundo ilustrado pelo autor, ou precisa-se de certa precaução para não se navegar ingenuamente numa embarcação cujo destino não se desponta em distância alguma?