A ilusão de que tudo está online

Por Renato Silvestre

Boa parte de nós, que passamos horas à frente de computadores ou de outros tipos de interfaces tecnológicos como tablets e modernos celulares, com o tempo parecemos nos tornar dependentes de toda essa parafernália. Esta dependência tende a limitar nosso campo de visão, criando a falsa certeza de que tudo o que acontece no mundo está traduzido para o campo online, para o universo digitalmente conectado.

Segundo dados revelados pelo Ibope Nielsen Online neste mês, no Brasil, apenas 82 milhões de pessoas tem acesso à internet. Ou seja, em um país com mais de 190 milhões de pessoas como é o nosso, nem mesmo a metade da população tem na internet um mecanismo de comunicação cotidiano. Obviamente, poderíamos ir mais a fundo ainda nestes números que notaríamos que grande parte destes 82 milhões de pessoas não a usam com a finalidade de produzir informação ou compartilhar algo a respeito de suas vidas cotidianas.

Uma prova disso é que o número de usuários brasileiros do Facebook, por exemplo, de acordo com a Socialbakers, em maio deste ano, era de 46 milhões pessoas. Claro que é um número grandioso, que inclusive confere ao Brasil o segundo lugar no ranking de países usuários na rede social de Mark Zuckerberg, mas nos dá a noção exata do quanto de vida “ainda” acontece longe da internet e das redes sociais conectadas.

Enquanto clicamos desesperadamente, teclamos ensandecidos e olhamos fixos para telas cada vez mais finas, o mundo gira e uma boa parte da história passa pela nossa janela. Mais da metade da população ainda não adentrou ao campo virtual de comunicação e isso não pode ser esquecido.

Certamente há na internet hoje um bom retrato do brasileiro do século XXI, no entanto, contraditoriamente, pelo interior deste país ainda há uma parcela significativa da população que mal saiu do século XIX. Fato é que de 2003 até agora mais de 12 milhões de brasileiros foram atendidos pelo Programa do Governo Federal “Luz para Todos”, que leva energia elétrica para os locais de mais difícil acesso do país. Ainda assim, segundo dados do Ministério de Minas e Energia, até 2014 mais 400 mil ligações serão realizadas.

A modernidade tecnológica que nos permite comunicar com tudo e com todos, saber de tudo sem saber de coisa alguma, ir para onde quiser sem sair do lugar é fantástica, mas em certa medida serve como droga alucinógena que ao mesmo tempo que expande nosso conhecimento tende a nos acorrentar a “máquinas maravilhosas” e a ilusão de que vivemos no mais espetacular e “admirável” dos mundos.

Ainda que possamos construir identidades complexas e possamos construir na internet um campo de discussão que perpasse o espaço virtual e permeie nossa realidade, podendo ser usada, inclusive, como instrumento de aglutinação e de organização de pessoas em torno das mais diferentes nobres causas, não podemos ignorar o fato de que a sua existência depende da existência física de quem a faz, ou seja, de seus usuários, programadores, técnicos e leigos navegantes.

Fica claro que nem tudo está online, nem todo mundo está conectado. Se queremos conhecer de fato um pouco mais sobre nosso mundo real é preciso sair da toca, tirar os dedos de teclas e telas e levantar da cadeira. Há um mundo lá fora, basta abrir os olhos!

Quando a tecnologia se transforma em espetáculo

Por Alessandra Rios

Quem disser que nunca ouviu uma mulher frustrada reclamar do super secador “Power Chrome” que não alisou o cabelo conforme o prometido ou alguém decepcionado com a plataforma “Energym Turbo”, que não fez queimar suficientemente suas calorias a mais, vai levar agora, mas somente se ligar agora, um super fatiador multiuso, que corta, rala e fatia os alimentos no formato em que você quiser! E mais, os dez primeiros a ligar levarão a escova “Hair Laser Combo” que interrompe a queda de seus cabelos, aumenta o volume e os faz crescer mais rápido!

Relembradas pela TV em canais que vão ao ar 24 horas por dia e 7 dias por semana, lojas como a Polishop são líderes em vendas de “produtos milagrosos” bem como de reclamações de consumidores insatisfeitos com as promessas não cumpridas das propagandas enganosas.

Mas afinal, o que encanta as pessoas e as faz consumir sem deliberação esses tipos de produtos?

Em um mundo marcado pelo consumismo desenfreado, somos, ao mesmo tempo produtores e consumidores. É preciso fazer a lógica do mercado acontecer:

“O consumo alienado torna-se para as massas um dever suplementar à produção alienada. Todo trabalho vendido de uma sociedade se torna globalmente a mercadoria total, cujo ciclo deve prosseguir. Para conseguir isso, é preciso que essa mercadoria total retorne fragmentadamente ao indivíduo fragmentado…” responde a pergunta acima, Gui Debord, em seu célebre livro “A sociedade do espetáculo”.

Com a revolução industrial, ocorre a divisão fabril do trabalho, surgem as linhas de produção e as mercadorias passam a ser fabricadas para o mercado mundial. A mercadoria começa, então, a ocupar um novo lugar: a vida social. Debord fala em seu livro:

“A mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: o mundo que se vê é o seu mundo”.

Com poucas opções de laser e diversão, as pessoas distraem-se comprando, adquirindo produtos que elas mesmas produzem; que antes não passavam de pedaços sem sentido na esteira de montagem e que agora surgem com a promessa de melhorar suas condições de vida, de trazer a elas o que o esforço repetitivo e exaustivo do trabalho lhes tira: o tempo. O tempo para cortar, ralar e fatiar seus alimentos; o tempo e a disposição para praticar seus exercícios físicos, o tempo para obter a tão desejada “qualidade de vida”, (embora, em um mundo de valores invertidos, não se saiba exatamente o que venha a ser essa tal “qualidade de vida”).

Nessa era do “tecnocentrismo”, produtos são revestidos de um poder absoluto e promovidos a salvadores do planeta Terra, dos desejos desequibilbrados, da canalização do estress e frustrações da vida. O consumismo é a nova válvula de escape de nossos tempos, é mais de que nunca a lei de estabilidade do sistema capitalista.

A tecnologia é defitivamente o grande espetáculo em cartaz, no momento. Produzida pela propaganda e dirigida pela mídia, ele se sustenta com a venda de ingressos no camarote, na área VIP ou no setor mais afastado; com entradas inteiras ou meia entrada.

Não importa onde quer que seja nosso lugar. No momento em que o show começa, todos nós nos sentamos e nos “igualamos”, mesmo que ilusoriamente, nas mesmas condições que os outros. E, por mais que sejamos muitos na platéia de consumidores, passamos totalmente despercebidos quanto indivíduos únicos…. psiu! senhoras e senhores, pedimos a todos que desliguem seus celulares e façam silêncio. Em cinco minutos o espetáculo vai começar!

Sobre religião, poder da mídia e tecnologia

Por Renato Silvestre

O avanço da tecnologia e, principalmente, de mecanismos que possibilitaram o crescimento da relevância da mídia na vida das pessoas, fez com que a forma de interação entre a sociedade e as instituições religiosas passasse por transformações e por readaptações próprias da condição humana. Aos poucos, os detentores do poder religioso também começaram a ver nos avanços da tecnologia midiática uma ótima possibilidade de chegar mais rapidamente aos corações e mentes de seus fiéis.

O rádio no Brasil talvez tenha sido a primeira grande ferramenta de interação midiática das igrejas com seus seguidores. Lançado em 1929, nos Estados Unidos, o Programa a Voz da Profecia, produzido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, chegou ao Brasil em 1943, sendo transmitido por 17 emissoras para diferentes cidades do país. O programa é considerado o primeiro do gênero, em âmbito nacional no rádio brasileiro. Obviamente, em menor escala, em muitas pequenas cidades brasileiras historicamente sempre houve nas rádios locais os chamados momentos de oração, onde famílias inteiras acompanhavam com afinco as preces diárias, geralmente, com uma abordagem católica.

O crescimento dos meios de comunicação resultou no papel fundamental da televisão como um dos principais, se não o único meio de informação, para boa parte da população. Hoje, temos emissoras que dedicam toda a sua programação a conteúdos religiosos e até contam com certa estruturada profissionalizada, como é o caso da Rede Vida e da Canção Nova.

Paralelamente também há igreja, como a Universal do Reino de Deus, que investiu e ainda investe pesadamente em seu canal de TV, no caso a TV Record, disputando de igual para igual com outras emissoras, com conteúdos populares e não religiosos, mas sem é claro não deixar de reservar espaços para propagar sua crença. A Universal possui ainda materiais impressos e espaços na internet que se utilizam de todas as mais modernas ferramentas de interação.

Em última instância, navegando pela internet e principalmente pelas redes sociais, não podemos deixar de perceber a enorme quantidade de perfis de usuários atrelados aos mais diversos grupos religiosos e que usam do alto potencial de alcance destas novas mídias como verdadeiros megafones de seus interesses.

Criam-se seguidores virtuais que podem tornar-se reais e juntam-se os reais em outra esfera de discussão que não somente os templos. Observa-se claramente que as igrejas (leia-se todas e as mais diversas) passaram a ver na mídia um campo altamente produtivo, e nas redes sócias um espaço ideal para colocação de seus ideias e para a aproximação com pessoas diversas, que talvez jamais ousassem adentrar fisicamente neste ou naquele templo religioso.

O Papa João Paulo II, certamente uma das figuras mais emblemáticas do século XX, é um exemplo desta interação entre religião, mídia, poder e tecnologia. Durante seu papado a Igreja Católica buscou abrir-se e sua própria figura foi ostensivamente reforçada na mídia. Seus passos eram seguidos por centenas, talvez milhares de jornalistas de todos os cantos do Planeta e a sua presença no país X ou Y sempre virava notícia. Parafraseando o cantor gaúcho Humberto Gessinger, “o Papa virou Pop”.

Nesta trilha, Padres começaram a aparecer em programas de TV, produzir e atuar em filmes e gravar CDs, vide Marcelo Rossi. O atual Papa da Igreja Católica Apostólica Romana, também tenta não ficar pra traz. Prova disso é que há quase um ano, em 29 de junho de 2011, Bento XVI twitava pela primeira vez utilizando um iPad.

Além das lideranças religiosas, tal e qual no campo político, há a militância religiosa que age pesadamente na internet, buscando cada vez mais seguidores e iguais, que possam neste território ainda pouco explorado caminhar juntos levando suas mensagens e crenças.

Podemos observar que as redes sociais digitais mostram-se como verdadeiros espelhos da sociedade contemporânea e os religiosos, como parte dela, mostram-se e usam deste espaço na tentativa de conquistar novos adeptos, indo exatamente onde as pessoas buscam cada vez mais se mostrarem, construindo identidades nem sempre compatíveis com as reais. A busca por fiéis sai somente do campo físico e chega ao virtual, almejando-se o espiritual.

Os próximos passos deste processo ainda não são conhecidos, mas pode-se afirmar que o futuro da religiosidade ou espiritualidade quase que certamente passará pela tecnologia midiática de celulares, tablets, notebooks e afins. Uma bela de uma contradição para quem usa velas de cera nos mais variados ritos e rituais. A religião para manter-se como fator de peso na sociedade mais do que nunca precisará apelar ao Deus da mídia e da tecnologia.

Fotografia digital: A tecnologia como o fim da criação artística e a nossa relação com a imagem

Por Alessandra Rios

Já foi a época em que a arte de fotografar tinha o seu glamour, ou melhor dizendo, era “mais artística”. Com a chegada das máquinas fotográficas digitais, especialmente as mais modernas, acopladas ao celular, o conceito de fotografar e a nossa relação com as imagens mudou no mundo inteiro. Para sempre.

A fotografia surgiu no inicio do século XIX, e era dedicada, anteriormente, a eternizar as famílias. Tirar uma foto, naqueles tempos, era um grande evento: os adultos e crianças tomavam banho, numa época em que a higiene diária não fazia parte de seus hábitos; eram escolhidas as melhores roupas; as mulheres escovavam os cabelos, os homens engraxavam os sapatos. Cada detalhe era perfeitamente cuidado, afinal, o registro ficaria para a história.

Com o tempo, a máquina fotográfica foi se popularizando e a tecnologia se tornando mais barata e acessível às pessoas. Ainda com a função de registrar momentos, as famílias adquiriam máquinas fotográficas e filmes de 12, 24 ou 36 poses – o que já era considerado um exagero – para eternizar eventos considerados importantes, como a festa de aniversário dos filhos ou uma viagem de férias.

Eis que um belo dia, a tecnologia permite o advento da máquina fotográfica digital.
Antes, a dúvida entre a escolha de um filme em PB (preto e branco) ou colorido pode
agora ser resolvida na própria máquina digital, ao girar um botão para lá ou para cá.
O novo suporte da fotografia já não é mais o papel e sim os HD’s dos computadores
cada vez mais abarrotados, esperando pela revelação de álbuns que nunca ocorre.

Na fotografia digital, o filme já não é mais o limitador da quantidade de registros como era na analógica. Não gostou da foto? Nem precisa apagar; faça outra e mais outra…
e ainda outra. Quantas forem necessárias (ou desnecessárias).

E, em meio à facilidade de apagar e refazer, editar e reeditar as fotografias, os fotógrafos (tanto amadores, quanto profissionais) estão apontando suas máquinas para todos os lados, sem um mínimo de senso crítico e sem parar para perguntar o que se quer fotografar. O foco da fotografia deixa de ser os eventos importantes e passa a ser qualquer coisa que eu deseje, principalmente eu mesmo, com meus auto-retratos. Resultado: milhares de fotos repetidas e muitas vezes desprovidas de sentido que, quando não esquecidas em uma pasta qualquer do HD, por excesso de imagens acabam gerando desinformação. Lembramos, aqui, da velha teoria da Iconofagia, de Norval Baitello Junior: “somos nós quem devoramos as imagens ou são elas que nos devoram”?

O problema maior surge quando a falta de senso crítico parte para o campo profissional. Com as inúmeras possibilidades técnicas da máquina fotográfica, há quem ande por aí brincando de ser fotógrafo e pior, há muitos comprando essa ideia! O dom artístico de compor e criar a imagem fotográfica se confunde com as possibilidades dos “efeitos mágicos” que as câmeras são capazes de criar. Perde-se a referência do que é e do que não é artístico.

Máquinas fotográficas cada vez mais avançadas com controles automáticos aperfeiçoados, softwares de edição capazes de controlar brilho e contrastes, saturação, efeitos de borda e tantas outras coisas parecem fazer milagres e tem servido de armadilha até mesmo para os fotógrafos profissionais, além de cegar muitos para os limites entre o profissional e o amador e entre o artístico e o esdrúxulo tecnológico. Isso se nota, principalmente, com o uso das máquinas
fotográficas acopladas aos iPads, iPhones etc, onde câmera está praticamente em todos os lugares e o tempo todo ao alcance do usuário e da rede, pois o compartilhamento dessas imagens, sobretudo nas redes sociais, alcançou uma velocidade surpreendente e é outro fenômeno a ser observado.

Não é o caso de assumir uma posição partidária ou apartidária ao lado da máquina fotográfica digital e softwares de edição. A verdade é que a fotografia digital mudou, irreversivelmente, a nossa forma de nos relacionarmos com as imagens. E aí se faz necessário compreender: nesse jogo, quem é funcionário de quem. As máquinas são nossas funcionárias ou nós é quem somos funcionárias delas? Esse é o dilema de Vilém Flusser, em sua Filosofia da Caixa Preta.

A fotografia digital tem seus inúmeros benefícios e seria ingenuidade deixar de reconhecê-los, a questão é: estamos fazendo da máquina fotográfica e dos programas de edição o meio ou o fim da criação artística?

Como educar nossos filhos?

Por Natália Sper

Vivemos a Era da Tecnologia, onde a Revolução Midiática trouxe transformações no comportamento, na forma de convivência, além de mudanças significativas no contexto cultural, social e econômico. Vivemos a transição de uma sociedade analógica para a digital.

No entanto, esse novo paradigma é a realidade para muitas pessoas (eu diria para a população jovem que já nasceu inserida nesse contexto), mas é um desafio para diversas outras pessoas, antes acostumadas a modelos de vida mais simples (pois, na avaliação dessa parcela, esse papo de tecnologia é algo deveras complicado). Inseridos nesse novo mundo, fica a pergunta: como educar nossos filhos?

As crianças nascidas nessa era estão habituadas a outro modo de vida, seus gostos, preferências não fazem mais parte daqueles acostumados por seus pais. Hoje essas crianças e jovens preferem uma tela de computador a bater uma bola, escolhem pela televisão ao invés de soltar pipas; e isso não é só uma questão de gosto, mas é o que lhes é oferecido.

A problemática não está nessas mudanças de atividades, pois muitas coisas alteram-se de geração para geração, o problema é como as crianças consomem esse entretenimento e como se distanciam de laços afetivos, como supervalorizam aspectos digitais e desconhecem realidades. Os pais não conseguem mais dialogar com seus filhos, não conseguem compreender o mundo que estão adaptados, não sabem mais qual é o jeito certo de agir para uma educação eficiente e de resultados.

Será, portanto que Aldous Huxley já previa essa sociedade tecnológica quando escreveu “Admirável Mundo Novo”, em 1932? E sua ideia de um mundo dividido por castas, pessoas concebidas em tubos de ensaio, a perda do espaço público, o declínio da instituição família (uma das mais poderosas desde a antiguidade) e a valorização pelo trabalho, já foi uma análise, ou melhor, um alerta, do que estava por vir?

A otimização do tempo na era do “Tecnocentrismo”

É possível?

Por Alessandra Rios

Como ter um dia de 36 horas, Assumindo o controle do seu tempo, Sete dicas infalíveis para otimizar o seu tempo. A questão da otimização do tempo parece ser uma das mais novas pautas do século XXI e o título mais famoso das capas de milhares de livros espalhados em livrarias, bancas de jornal e de incontáveis artigos na internet.

A maioria dos “conselhos” vêm escritos em intermináveis tópicos e ocupam mais de uma centena de páginas na maioria dos livros, uma lógica um tanto contrária ao que os autores se propõe a ensinar: a otimização de tempo.

Como não poderia deixar de ser, o mercado de bens de consumo e serviços logo viu uma oportunidade de ampliar as suas ofertas e elas rapidamente se converteram não somente em livros, DVD’s e consultorias oferecendo palestrantes renomados e especialistas no assunto, bem como em softwares dedicados em fazer o nosso dia de trabalho render mais de 24 horas e em nos disponibilizar sete dias por semana.

É interessante notar como essas ferramentas interferiram radicalmente em nosso ambiente e cultura de trabalho. Acreditava-se, em um passado não tão distante, que por meio da tecnologia seria possível diminuir o tempo dos profissionais, gasto em trabalhos operacionais, empregá-lo em atividades mais estratégicas e proporcionar menor sobrecarga de trabalho.

Foi aí que a criatura se voltou contra o seu próprio criador e, na impossibilidade de se igualar a ele, o fez escravo de si. Diante da irresistível tentação de controlar inúmeros processos burocráticos, as empresas passam a colocar o planejamento estratégico de lado, dando lugar à implantação de softwares de controle para todo o tipo de operação. Afinal, quem resiste uma planilha de Excel, e o maravilhoso mundo da tabela dinâmica?

Longe de desmerecer o Pacote Office, os demais softwares e todas as suas vantagens, a intenção é resgatar o objetivo inicial dessas ferramentas e questionar se elas realmente contribuem para a otimização de tempo. E se de fato caminham nessa direção, o que é feito com o precioso “tempo que nos sobra”?

Nas passarelas do mundo corporativo desfila agora uma nova moda: as ferramentas de colaboração virtual. O Avaya Flare, da companhia norte-americana de telecomunicações Avaya, surge em 2010 no mercado global para os executivos com o apelo da otimização de tempo de seus funcionários e transformação destes em “profissionais multitarefa”. Através de um aparelho descomplicado e uma interface amigável, é possível fazer e receber chamadas de voz e vídeo, acessar o e-mail, a internet, compartilhar arquivos entre outros. Tudo isso, ao mesmo tempo, com diversas pessoas e em uma tela de 10’. Há menos de um século, a cena da “food machine”, no filme Tempos Modernos, parecia prever nossos dias atuais.

Mais uma vez é necessário reforçar: seria ingênuo e até mesmo de tamanha ignorância negar as grandes contribuições da tecnologia na diminuição do vácuo “tempo x espaço” e no aspecto econômico, já que, com esses novos recursos é possível resolver assuntos importantes a quilômetros de distância, sem precisar pagar passagem de avião, hospedagem em hotel e locomoção. Porém, seria igualmente ingênuo acreditar que essas mesmas tecnologias vieram para nos proporcionar maior “tempo livre”, até mesmo no ambiente de trabalho.

Não escutamos apenas uma ou duas vezes pessoas dizerem que o dia deveria ter pelo menos 36h. Para os desavisados, ao menos no mundo dos negócios, ele já tem muito mais que isso. De acordo com pesquisas da área de Recursos Humanos, atualmente, o volume de atividades que coordenamos diariamente em nossas nove ou dez horas de trabalho corresponde a mais de 40 horas trabalhadas, considerando que nos dedicaríamos a uma atividade por vez, de forma eficiente e dentro de um prazo considerado razoável. Não é preciso nem mencionar a responsável por toda essa “evolução”.

Virou clichê entre os não adeptos à tecnologia, mas pode ser que a reflexão valha a pena: a tecnologia veio ao mundo para resolver não todos, mas boa parte dos problemas que antes dela nós não tínhamos como, por exemplo, a otimização de tempo.

Estamos definitivamente na era do “Tecnocentrismo”. E por diversas vezes, ao experimentarmos a sensação de que nosso preciso tempo se esvai pelo ralo do maravilhoso mundo da tecnologia, talvez possamos transformar o slogan da Avaya em uma questão a ser pensada: “technology really puts people first”?

A construção do EU “facebookiano”

Por Renato Silvestre

Os perfis nas redes sociais digitais e, em especial, no Facebook são reflexos tecnológicos das pessoas reais ou o que se vê virtualmente não é mais do que mera ilusão?

Coloco este questionamento, pois navegando por esse universo é fácil notar que as pessoas por detrás de cada perfil criam, ainda que involuntariamente, um mundo paralelo, repleto de relacionamentos artificiais e de uma simbologia própria, que desconstrói o EU real para “montar” a personagem bacana, antenada e fictícia, vista por todos na rede.

Obviamente, esse que vos escreve não é uma exceção. Todos tendemos a querer externar publicamente apenas aquilo que tende a agradar a maioria, ou a maior parte de nossos contatos. Até mesmo os momentos de tristeza ou decepção ganham ares glamourizados, com frases de efeitos a espera do maravilhoso “curtir” dos amigos virtuais. Os momentos de tristeza do proprietário do perfil passam longe daquele vivido em carne e osso.

Por que isso acontece? Talvez porque cada vez mais a naturalidade dos sentimentos, sejam eles bons ou ruins, deixa de existir nesse mundo alternativo e tecnológico da internet. É preciso se enquadrar em um padrão pasteurizado onde todo mundo é legal, todos vivem felizes, todos viajam para inúmeros lugares, todos realizam sonhos, compram coisas da moda e convivem em uma eterna harmonia com seus amigos. Não, meus caros, infelizmente, o mundo real não é assim!

Obviamente, sempre há, sob a pena de ser ridicularizado ou ter seu perfil e publicações deletados ou ignorados, aqueles que tentam nadar contra essa avassaladora corrente e buscam colocar na rede digital aquilo que realmente pensam e são, no entanto, temos de convir que ser minoria e defender os direitos da minoria é missão bem complicada e, redundantemente, para poucos.

Neste contexto, há, por parte dos usuários de redes sociais digitais, o nítido uso de uma máscara social adaptável e agradável aos padrões da maioria. Gostos, preferências e imagens são cuidadosamente selecionados para seduzir. Um jogo de sedução que não tem nada a ver com amor, mas sim, com status. Afinal, ainda que impraticável, quem não gostaria de “ter um milhão de amigos”?

A construção desse EU “facebookiano” passa pela loucura da popularidade, atravessa o campo da superexposição e chega aos limites infundados da negação de seus próprios princípios. É um processo complexo e perigoso de obtenção de poder e de aumento de visibilidade a qualquer custo, onde não importam os vínculos concretos, mas sim, números de compartilhamentos.

Como extensão de um realidade física, as rede sociais digitais ganham espaço na vida das pessoas de forma crescente. Conversas de bar tornam-se papos online. Um abraço perde o significado e é substituído por um “curtir”. O compartilhamento de ideias e ideais (ainda que vazios) são instantâneos e realizados a base de cliques.

E assim, os relacionamentos interpessoais perdem espaço para os virtuais, enquanto um universo ficcional, muito mais fácil e adaptável, vai sendo rapidamente processado e melhorado para suportar apenas o que é belo, perfeito, previsível e “irreal”.

“Ford está no seu calhambeque. Tudo vai bem pelo mundo!” (HUXLEY, p.57).

Entre o Ter e o Ser tecnológico

Por Renato Silvestre

“Um bom computador e um carro veloz pra me manter distante de mim”. Esse verso que inicia a canção “Zero e Um” da banda capixada de hard core, Dead Fish, retrata um pouco do espírito do nosso tempo. Um tempo onde o Ter e Parecer corre o risco de tornar-se mais relevante do que Ser.

Nesse tempo de computadores portáteis, celulares magníficos e redes sociais digitais que fascinam e conectam pessoas ao redor do Planeta, em velocidades cada vez maiores, a tecnologia deixa de ser um mero suporte físico aos anseios de criação humanos. Em certa medida, a tecnologia deixa de ser meio e passa a ser o fim, ou o princípio dele.

O convívio social, outrora, fundamental para o processo de autoconhecimento do ser humano é substituído pelo isolamento frente a telas cada vez mais finas. Mesmo quando acompanhados parecemos cada vez mais distantes uns dos outros, distantes de nós mesmos. Ou será que ninguém nunca viu pessoas sentadas à mesma mesa dialogarem mais com seus celulares do que com quem está a sua frente? Ou famílias inteiras mais atentas à novela que colore a TV do que a vida de seus próprios “entes queridos”?

Há uma aflição que paira nesse nosso poluído ar pós-moderno. Uma aflição que se confunde com o deslumbramento diante da “admirável” tecnologia que construímos.

O filósofo tcheco Vilém Flusser já alertava para esse risco constante da criatura tornar-se mais importante do que o criador, fazendo deste um funcionário/dependente de forma extrema do outro.

Estaríamos correndo este risco ou essa seria apenas parte de nossa “evolução” como espécie?

Não é simples responder a esse questionamento, pois a mesma tecnologia que aprisiona também pode libertar, se for usada com sobriedade.

Um exemplo claro disso aconteceu durante a conhecida “Primavera Árabe”, no início de 2011, onde uma onda de manifestações contra os governos ditatoriais em países do norte da África e do Oriente Médio se alastrou e ganhou força por meio de redes sociais digitais como o Facebook e o Twitter. O resultado imediato foi a ganho da atenção mundial, a pressão política e a consequente queda de ditadores como Zine el Abidin Ben Ali e Hosni Mubarak, que se permeavam no comando dos países por 23 e 30 anos, respectivamente.

Por outro lado, esse avanço tecnológico nos faz passar por um tempo de transição, um tempo que causa estranhamento e que é capaz de criar “não lugares” (brincando com o conceito do francês Marc Augé) até nos lugares mais improváveis, como a nossa casa ou nossa família, pois se não há vivência, sentimento de pertencimento, interação e, principalmente, vínculos reais e humanos o “lar doce lar” vira pó tecnológico.

Se fazemos parte de um gigantesco rebanho de um “Admirável Gado Novo” – parafraseando a música de Zé Ramalho – e se estamos atrelados a loucura do consumismo de quem sempre quer o “Admirável Chip Novo” – recordando a canção da baiana Pitty –, só o tempo poderá confirmar. No entanto, o que vejo é que esse “povo marcado e feliz” ainda continua extremamente preso ao poder do talvez imutável “pense, fale, compre, beba”, que desumaniza e programa a humanidade para seguir nessa eterna correria cotidiana, cada vez “mais rápido”!

Fica a reflexão: “Todo excesso traz, em si, o germe da autodestruição!”, Aldous Huxley.