Quando a tecnologia se transforma em espetáculo

Por Alessandra Rios

Quem disser que nunca ouviu uma mulher frustrada reclamar do super secador “Power Chrome” que não alisou o cabelo conforme o prometido ou alguém decepcionado com a plataforma “Energym Turbo”, que não fez queimar suficientemente suas calorias a mais, vai levar agora, mas somente se ligar agora, um super fatiador multiuso, que corta, rala e fatia os alimentos no formato em que você quiser! E mais, os dez primeiros a ligar levarão a escova “Hair Laser Combo” que interrompe a queda de seus cabelos, aumenta o volume e os faz crescer mais rápido!

Relembradas pela TV em canais que vão ao ar 24 horas por dia e 7 dias por semana, lojas como a Polishop são líderes em vendas de “produtos milagrosos” bem como de reclamações de consumidores insatisfeitos com as promessas não cumpridas das propagandas enganosas.

Mas afinal, o que encanta as pessoas e as faz consumir sem deliberação esses tipos de produtos?

Em um mundo marcado pelo consumismo desenfreado, somos, ao mesmo tempo produtores e consumidores. É preciso fazer a lógica do mercado acontecer:

“O consumo alienado torna-se para as massas um dever suplementar à produção alienada. Todo trabalho vendido de uma sociedade se torna globalmente a mercadoria total, cujo ciclo deve prosseguir. Para conseguir isso, é preciso que essa mercadoria total retorne fragmentadamente ao indivíduo fragmentado…” responde a pergunta acima, Gui Debord, em seu célebre livro “A sociedade do espetáculo”.

Com a revolução industrial, ocorre a divisão fabril do trabalho, surgem as linhas de produção e as mercadorias passam a ser fabricadas para o mercado mundial. A mercadoria começa, então, a ocupar um novo lugar: a vida social. Debord fala em seu livro:

“A mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: o mundo que se vê é o seu mundo”.

Com poucas opções de laser e diversão, as pessoas distraem-se comprando, adquirindo produtos que elas mesmas produzem; que antes não passavam de pedaços sem sentido na esteira de montagem e que agora surgem com a promessa de melhorar suas condições de vida, de trazer a elas o que o esforço repetitivo e exaustivo do trabalho lhes tira: o tempo. O tempo para cortar, ralar e fatiar seus alimentos; o tempo e a disposição para praticar seus exercícios físicos, o tempo para obter a tão desejada “qualidade de vida”, (embora, em um mundo de valores invertidos, não se saiba exatamente o que venha a ser essa tal “qualidade de vida”).

Nessa era do “tecnocentrismo”, produtos são revestidos de um poder absoluto e promovidos a salvadores do planeta Terra, dos desejos desequibilbrados, da canalização do estress e frustrações da vida. O consumismo é a nova válvula de escape de nossos tempos, é mais de que nunca a lei de estabilidade do sistema capitalista.

A tecnologia é defitivamente o grande espetáculo em cartaz, no momento. Produzida pela propaganda e dirigida pela mídia, ele se sustenta com a venda de ingressos no camarote, na área VIP ou no setor mais afastado; com entradas inteiras ou meia entrada.

Não importa onde quer que seja nosso lugar. No momento em que o show começa, todos nós nos sentamos e nos “igualamos”, mesmo que ilusoriamente, nas mesmas condições que os outros. E, por mais que sejamos muitos na platéia de consumidores, passamos totalmente despercebidos quanto indivíduos únicos…. psiu! senhoras e senhores, pedimos a todos que desliguem seus celulares e façam silêncio. Em cinco minutos o espetáculo vai começar!

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