A construção do EU “facebookiano”

Por Renato Silvestre

Os perfis nas redes sociais digitais e, em especial, no Facebook são reflexos tecnológicos das pessoas reais ou o que se vê virtualmente não é mais do que mera ilusão?

Coloco este questionamento, pois navegando por esse universo é fácil notar que as pessoas por detrás de cada perfil criam, ainda que involuntariamente, um mundo paralelo, repleto de relacionamentos artificiais e de uma simbologia própria, que desconstrói o EU real para “montar” a personagem bacana, antenada e fictícia, vista por todos na rede.

Obviamente, esse que vos escreve não é uma exceção. Todos tendemos a querer externar publicamente apenas aquilo que tende a agradar a maioria, ou a maior parte de nossos contatos. Até mesmo os momentos de tristeza ou decepção ganham ares glamourizados, com frases de efeitos a espera do maravilhoso “curtir” dos amigos virtuais. Os momentos de tristeza do proprietário do perfil passam longe daquele vivido em carne e osso.

Por que isso acontece? Talvez porque cada vez mais a naturalidade dos sentimentos, sejam eles bons ou ruins, deixa de existir nesse mundo alternativo e tecnológico da internet. É preciso se enquadrar em um padrão pasteurizado onde todo mundo é legal, todos vivem felizes, todos viajam para inúmeros lugares, todos realizam sonhos, compram coisas da moda e convivem em uma eterna harmonia com seus amigos. Não, meus caros, infelizmente, o mundo real não é assim!

Obviamente, sempre há, sob a pena de ser ridicularizado ou ter seu perfil e publicações deletados ou ignorados, aqueles que tentam nadar contra essa avassaladora corrente e buscam colocar na rede digital aquilo que realmente pensam e são, no entanto, temos de convir que ser minoria e defender os direitos da minoria é missão bem complicada e, redundantemente, para poucos.

Neste contexto, há, por parte dos usuários de redes sociais digitais, o nítido uso de uma máscara social adaptável e agradável aos padrões da maioria. Gostos, preferências e imagens são cuidadosamente selecionados para seduzir. Um jogo de sedução que não tem nada a ver com amor, mas sim, com status. Afinal, ainda que impraticável, quem não gostaria de “ter um milhão de amigos”?

A construção desse EU “facebookiano” passa pela loucura da popularidade, atravessa o campo da superexposição e chega aos limites infundados da negação de seus próprios princípios. É um processo complexo e perigoso de obtenção de poder e de aumento de visibilidade a qualquer custo, onde não importam os vínculos concretos, mas sim, números de compartilhamentos.

Como extensão de um realidade física, as rede sociais digitais ganham espaço na vida das pessoas de forma crescente. Conversas de bar tornam-se papos online. Um abraço perde o significado e é substituído por um “curtir”. O compartilhamento de ideias e ideais (ainda que vazios) são instantâneos e realizados a base de cliques.

E assim, os relacionamentos interpessoais perdem espaço para os virtuais, enquanto um universo ficcional, muito mais fácil e adaptável, vai sendo rapidamente processado e melhorado para suportar apenas o que é belo, perfeito, previsível e “irreal”.

“Ford está no seu calhambeque. Tudo vai bem pelo mundo!” (HUXLEY, p.57).

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