“… um pedaço de carne”

Por Magno Viana

Ao retratar no seu mundo ideológico o sujeito e o objeto, o escritor Aldous Huxley, o faz de forma tão intensa que confunde e, até mesmo promove a fusão dos dois conceitos.

Percebe-se na dialética da personagem Bernard Marx com seus interlocutores, aparente pasmo daquele por causa da naturalidade destes com relação à liberdade. Acreditam que ser livre no sentido verdadeiro do termo é fazer o que se imagina, sente ou percebe necessário.

Viver a busca e consumação das experiências humanas sem restrições é o ápice da própria existência. Desta forma, Admirável Mundo Novo é a categórica imagem revelada do universo da satisfação sensorial.

Todavia, Marx contesta as ideias e condutas dos patrícios, as quais, entretanto, perpassam todo o conteúdo do livro. Ele afirma que a mulher poderia ser observada como sujeito, um ser personalizado.

Huxley racionaliza, mecaniza e petrifica as relações humanas, objetivando a felicidade, que segundo ele, pode ser propiciada por uma condição de vida atrelada à organização social, efetivação de anseios, promiscuidade, novos padrões de comportamento e extinção dos núcleos familiares.

O escritor nos remete a um mundo cujos habitantes primam ser despojados de sensibilidade, fraqueza e falibilidade. O romantismo é banido. Homens e mulheres fazem sexo com quem e quando quiserem. Creem na tese “… cada um pertence a todos. HUXLEY, p.84”.

Assim sendo, não existem limitações na esfera inter-relacional. Todos os homens passam a ter autonomia para fazer o que anseiam com os semelhantes.

Mustafá Mond, uma das personagens da obra, é o protótipo da realidade que Huxley considera possível. Ao asseverar que não existe impedimento que não possa ser desfeito, Mond prefigura o homem-deus, trabalhado cuidadosa e sutilmente no Mundo Novo desenhado no livro.

Seres femininos também não se incomodam em ser alvo dos desejos sexuais desenfreados dos masculinos. Mesmo por que, no ponto de vista das fêmeas, o crescimento advindo dessa experiência será para ambos.

Lenina em um diálogo com Fanny reclama da falta de variedade de parceiros sexuais “… estou começando a sentir um pouco de tédio por não ter todos os dias outra pessoa, que não seja Henry. (Henry Foster), p. 85″

A mente destoante na história em apreço se manifesta nas palavras e semblante de Bernard. “Falam nela (na mulher), como se fosse um pedaço de carne. p.87”. Ele empalidece depois de ouvir o que os concidadãos pronunciam acerca do tipo de relação que o macho deve ter com a mulher. “Hei de experimentá-la, certamente. Na primeira oportunidade. p. 85”.

Uma pergunta que ressoa diante da elaboração teórica de tal forma de vida, deveras surpreendente, permissiva e isenta de afetividade, é se de fato haverá consolidação e durabilidade de relações que se desenvolvem descomprometidas de todos os tipos de laços. Sejam eles, fraternais, conjugais ou familiares.

Origina-se em seguida um outro questionamento tão pertinente quanto o primeiro: Será que a sociedade do século XXI está caminhando para o planeta previsto por Huxley, ou ao invés de estar na direção desse horizonte, ela não já está residindo nele e o recebendo em doses homeopáticas, filosóficas, sociais, religiosas e políticas?

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