Diálogo das cadeiras

A reivenção das relações humanas na era da tecnonologia dos meios de Comunicação

Por Alessandra Rios

Era  18 de setembro de 1950, data memorável para a América Latina: “Está no ar a       TV no Brasil”. A frase dita por Sônia Maria Dorce, índia, com então cinco anos de idade, marca a chegada da TV nos lares das famílias brasileiras.

As imagens eram de baixíssima qualidade. O primeiro telejornal, “Imagens do Dia”, não tinha horário fixo. Podia ser exibido às 09h30 ou às 10h, ficando a mercê da boa vontade dos equipamentos da época, sucetíveis a frequentes problemas técnicos e de operação.

A TV brasileira percorreu longos anos até conquistar a qualidade técnica e de produção que temos hoje (em seu auge, atualmente, com a tecnologia digital). Porém, para a geração dos baby boomers que estavam chegando ao mundo e a de seus pais, aquela caixa luminosa e nada estética, causou uma revolução na forma como as pessoas se relacionavam.

A tecnologia era cara e acessível a poucos. Viizinhos, parentes e amigos se reuniam à noite nas casas dos “privilegiados” para assistir às programações. Se por um lado a TV serviu como ponte para unir, ao menos aparentemente, “os distantes”, por outro, ironicamente, afastou “os próximos”. Os sofás e cadeiras das casas foram testemunhas disso.

Anterior à chegada do mais novo membro da família, a TV, as cadeiras e sofás das salas, dispostos sempre frente a frente, foram durante anos fiéis confidentes dos diálogos informais entre pais e filhos, quase como “divãs” dos reclames familiares. Com a tecnologia, as cadeiras se tornaram divãs do espetáculo imagético, assumindo a função de “psicólogas” de novos reclames: os do “plim, plim”.

Dispostas agora, parelamente, sob a meia luz do seu novo confessor, as cadeiras talvez até sintam uma certa nostalgia ao relembrar  as  entusiasmadas conversas humanas.

No mesmo caminho, porém a passos mais largos, segue a internet. Se na era da TV as cadeiras deixaram de “se dar as mãos”, diante das inifinitas possibilidades do mundo virtual e interativo, essas se dão até mesmo as costas. Basta pensar em como elas são dispostas nas lan houses, por exemplo.

“A dependência à imagem isola o indivíduo e lhe propõe simulações do próximo. Quanto mais estou na imagem, menos invisto na atividade de negociação com o próximo, que é, na reciprocidade, constituitiva de minha identidade.” Essa colocação feita por Marc Augé em “Sobremodernidade: do mundo tecnológico de hoje ao desafio essencial do amanhã” nos convida a uma reflexão sobre o problema da virtualização, da substituição do real pela imagem – uma inversão de valores que vêm causando profundas transformações nos relacionamentos e na formação de identidades.

Em Farenheit 451, romance de 1953, uma das personagens projetadas por seu autor, Ray Bradbury, Mildred, é a mulher do personagem principal, Guy Montag. Isenta de qualquer senso crítico, a personagem vive no limite do imaginário, onde estabele relações com uma família virtual, projetada por um equipamento tecnológico. Todas as suas decisões e emoções são tomadas com base nessa relação que, embora fictícia parece muito mais embasada e real que o relacionamento com o próprio marido.

Não o bastante, a personagem ainda utiliza diversos medicamentos para esquecer sua condição de vida e suportar os relacionamentos reais aos quais é exposta e obrigada a conviver. Adouls Huxley formulou um entorpecente parecido com esse em “Admirável Mundo Novo”: o soma era a solução para a fuga de qualquer situação não-prazerosa ou que viesse causar conflitos entre os demais integrantes das castas.

Seriam, portanto,a TV e mais recentemente a internet justamente esses meios de fuga, os “entorpecentes” da sociedade pós-moderna?  E mais: em contato com esses meios, teriam emergido do chão e morrido as raizes identitárias do ser humano?

O homem vive buscando, continuamente, novas formas de produzir-se a si mesmo (de modo real ou fictício), já dizia Ernst Fischer, em seu livro “A necessidade da arte”, e a arte e os meios de comunicação são os caminhos que facilitam o processo de fuga, de autoprodução. Segundo ele, é muito mais fácil enfrentar os dramas da vida particular e coletiva, vendo-os reproduzidos e encenados em peças teatrais, novelas, reality shows entre outros.

Por outro lado, a premissa de que esses meios estejam contribuindo para a rejeição de valores e negação da identidade não é verdade suprema, pelo contrário; deixando um pouco aquém os interesse econômicos e políticos, como se explica o fenômeno da criação de tantas igrejas/seitas religiosas? E o resgate e revalorização de cutluras dadas praticamente por extintas em muitos países, sobretudo asiáticos? Uma das possíveis resposta talvez seja a busca insana do ser humano por algo ao qual ele possa se agarrar e aprofundar novamente suas  rasas raízes.

Assim, no silêncio da meia luz da TV ou de uma tela de computador, vemos algumas salas tomadas pela nostalgia e pelo desejo de aproximar mais as suas cadeiras, ao menos paralelamente, dando a elas a opotunidade de “se darem as mãos” novamente e recomeçarem um diálogo.