A aceitação do ser ou o que ele pode ser…

Por Magno Viana

No filme “Um Método Perigoso” (trailer abaixo), exibido em primeira mão no Festival de Veneza de 2011, com direção de David Cronenberg e protagonizado por Keira Knightley, Michael Fassbender e Viggo Mortensen, trabalha-se o estranho comportamento da paciente russa Sabina Spielrein (Knightley). Ela apresenta transtornos mentais que a levam à autodestruição. O médico, Carl Jung (Fassbender), que a atende em uma clínica de Zurique, pesquisa a fundo para entender a história dela e apresentar um diagnóstico e antídoto.

Mediante o diálogo e viagem retrospectiva o psicanalista acredita que encontrará respostas para o sofrimento de Sabina, pois ela vive afetada pelo sentimento de culpa, histeria e esquizofrenia. Pretendendo oferecer um tratamento eficiente, Jung procura Sigmund Freud (Mortensen), o pai da psicanálise, e expõe o caso. Este acredita que o cerne da questão reside na sexualidade, e que todo ser humano é o que nasceu para ser. Desta forma, cabia ao profissional auxiliá-lo no processo de auto aceitação, para que a pessoa em tratamento pudesse fazer o que desejasse e relacionar-se tanto pessoal como profissional e sexualmente com quem e da maneira que escolhesse.

Entretanto, Jung percebia o problema na não descoberta do homem sobre o que ele poderia vir a ser. Sendo assim, mesmo na condição de discípulo de Freud, ele discordava do mestre. O primeiro era protestante e o segundo, judeu. Este fato originava divergências além de conceituais e profissionais, religiosas. Que influenciavam o tipo de terapêutica disponibilizado por eles aos doentes. Mesmo considerando a profundidade e relevância das teorias freudianas, Jung via no mestre manipulação e inflexibilidade inaceitáveis. Mas Sabina, que mais tarde foi atendida também por Freud, concordava com este. Ela concebia a solução para os transtornos na auto aceitação.

A principal razão do rompimento entre os dois especialistas foi a discordância acima citada. Todavia, tanto em um como em outro se constata a predominância de sentimentos sombrios. Em Freud a vaidade profissional, e em Jung, o orgulho religioso. Este, porém, ainda que ocultamente, por causa da religião e do casamento, passa a utilizar-se de técnica até então inusitada, pelo menos na área médica. Estuda o caso de Sabina recorrendo ao sexo, inclusive com práticas sadomasoquistas: (durante o ato sexual ele a agredia com palmadas e cintadas, e ambos sentiam prazer).

É interessante ressaltar que, pelo menos o discurso de Jung se assemelha ao de Aldous Huxley. Quando este contesta o mundo real no livro “Admirável Mundo Novo”. O ideólogo aponta um panorama organizacional de sociedade que difere bastante de tudo que tem sido presenciado e noticiado. Na perspectiva por ele apresentada seriam extintas as convenções sociais: famílias, fidelidade entre parceiros sexuais, possibilidade de oscilação entre classes, ascensão e declínio de indivíduos e empresas e restrições referentes ao uso de drogas. No Mundo Novo existiria o condicionamento pré-natal, ensino durante o sono e a euforia provocada pelos entorpecentes.

Freud não pensava outra sociedade, ele cogitava e investia teoricamente na compreensão daquela que conhecia. Jung e Huxley, ainda que percorrendo caminhos distintos, vislumbravam o que poderia, segundo eles, se tornar realidade. Aceitar-se como é ou direcionar a vida para a incorporação do vir a ser é o dilema-chave tanto do filme como do livro. Ponderando o assunto,atribui-se importância acadêmica e psicanalítica sem precedentes para os dois posicionamentos.

Outrossim, precisa-se consolidar antes da busca pelo vir a ser, a compreensão do que já se tem como concreto. E, atentando para a comparação entre os pontos de vista abordados, emerge a seguinte interrogação: Em qual situação as pessoas permitem a expressão do espírito criador, e expõem livremente anseios íntimos sem recalque ou censura alheia? E, finalizando, desponta mais um questionamento: Em que modelo existencial o ser humano sente-se verdadeiramente feliz consigo mesmo e com a condição social em que está inserido, enquanto vida, cidadão e ser pensante e participante?

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A construção do EU “facebookiano”

Por Renato Silvestre

Os perfis nas redes sociais digitais e, em especial, no Facebook são reflexos tecnológicos das pessoas reais ou o que se vê virtualmente não é mais do que mera ilusão?

Coloco este questionamento, pois navegando por esse universo é fácil notar que as pessoas por detrás de cada perfil criam, ainda que involuntariamente, um mundo paralelo, repleto de relacionamentos artificiais e de uma simbologia própria, que desconstrói o EU real para “montar” a personagem bacana, antenada e fictícia, vista por todos na rede.

Obviamente, esse que vos escreve não é uma exceção. Todos tendemos a querer externar publicamente apenas aquilo que tende a agradar a maioria, ou a maior parte de nossos contatos. Até mesmo os momentos de tristeza ou decepção ganham ares glamourizados, com frases de efeitos a espera do maravilhoso “curtir” dos amigos virtuais. Os momentos de tristeza do proprietário do perfil passam longe daquele vivido em carne e osso.

Por que isso acontece? Talvez porque cada vez mais a naturalidade dos sentimentos, sejam eles bons ou ruins, deixa de existir nesse mundo alternativo e tecnológico da internet. É preciso se enquadrar em um padrão pasteurizado onde todo mundo é legal, todos vivem felizes, todos viajam para inúmeros lugares, todos realizam sonhos, compram coisas da moda e convivem em uma eterna harmonia com seus amigos. Não, meus caros, infelizmente, o mundo real não é assim!

Obviamente, sempre há, sob a pena de ser ridicularizado ou ter seu perfil e publicações deletados ou ignorados, aqueles que tentam nadar contra essa avassaladora corrente e buscam colocar na rede digital aquilo que realmente pensam e são, no entanto, temos de convir que ser minoria e defender os direitos da minoria é missão bem complicada e, redundantemente, para poucos.

Neste contexto, há, por parte dos usuários de redes sociais digitais, o nítido uso de uma máscara social adaptável e agradável aos padrões da maioria. Gostos, preferências e imagens são cuidadosamente selecionados para seduzir. Um jogo de sedução que não tem nada a ver com amor, mas sim, com status. Afinal, ainda que impraticável, quem não gostaria de “ter um milhão de amigos”?

A construção desse EU “facebookiano” passa pela loucura da popularidade, atravessa o campo da superexposição e chega aos limites infundados da negação de seus próprios princípios. É um processo complexo e perigoso de obtenção de poder e de aumento de visibilidade a qualquer custo, onde não importam os vínculos concretos, mas sim, números de compartilhamentos.

Como extensão de um realidade física, as rede sociais digitais ganham espaço na vida das pessoas de forma crescente. Conversas de bar tornam-se papos online. Um abraço perde o significado e é substituído por um “curtir”. O compartilhamento de ideias e ideais (ainda que vazios) são instantâneos e realizados a base de cliques.

E assim, os relacionamentos interpessoais perdem espaço para os virtuais, enquanto um universo ficcional, muito mais fácil e adaptável, vai sendo rapidamente processado e melhorado para suportar apenas o que é belo, perfeito, previsível e “irreal”.

“Ford está no seu calhambeque. Tudo vai bem pelo mundo!” (HUXLEY, p.57).

Capitalismo e Tecnologia: Aliados perfeitos

Por Natália Sper

Desde que o homem se entende por homem e aprendeu a conviver em sociedade, ele precisou rever conceitos e formas de convivência. Por conta disso, para promover um lugar mais organizado, criou as leis, que a princípio, pareciam ser a medida exata para garantir uma comunidade livre de problemas e desigualdades. Após criar as leis era preciso criar uma instituição que pudesse organizá-las, eis que surge o Estado. Porém, a própria noção de Estado já fere a ideia de igualdade para todos, a partir do momento em que há uma divisão do poder, na qual uma parcela é responsável por determinar o que todos deverão fazer juntos ou não. Sendo assim, o espaço público, deveras vezes, fica comprometido e a própria ideia de “público”, equivocada. Levantando essa questão, é que o filósofo Jürgen Habermas, traz à tona a noção de “esfera pública”, que em resumo, se dá pela ação comunicativa e formação discursiva da opinião e da vontade.

No entanto, o conceito trazido por Habermas e debatido por diversas pessoas, entra em conflito e novas percepções de “esfera pública” são levantadas; e não só a esfera pública em si, mas também outras, como a esfera pública política e a esfera pública literária. Segundo, Jorge Almeida, em Mídia, Opinião Pública ativa e Esfera Pública democrática, “atualmente, não encontramos uma esfera pública como aquela descrita inicialmente por Habermas. Ou seja, a reunião de um público, formado por pessoas privadas, que constroem uma opinião pública com base na racionalidade do melhor argumento, e fora da influência do poder político e econômico”. Portanto,  podemos dizer que a tese defendida por Habermas está um pouco “ultrapassada”, e de acordo com Almeida, isso devido “à burocratização e mercadorização crescente do espaço público, à manipulação e ao papel que a mídia e marketing exercem neste sentido”.

Com a Revolução Tecnológica e Midiática, os veículos de comunicação passam a exercer um papel fundamental na sociedade e, consequentemente, no que Habermas chama de “esfera pública literária”. Contudo, com o modelo capitalista e o consumismo como parte ativa da vida das pessoas, a esfera pública literária experimenta o início de seu declínio, afinal como o próprio filósofo declarou na obra Mudança Estrutural da Esfera Pública, “as leis do mercado já penetram na substância das obras, tornando-se imanentes a elas como leis estruturais”.

Podemos ampliar o efeito dessa mudança e acrescentar outro elemento que vem contribuindo para a alteração da esfera pública literária: a internet. Pois, sendo um arranjo comunicacional de redes digitais, ela propicia uma desintermediação, o que está alterando a esfera pública e a comunicação com as instituições de poder.

Portanto, agora podemos citar a internet como um espaço de deliberação, onde as pessoas podem expor suas opiniões e vontades, além de discutirem sobre diversos temas. Verdadeiramente um espaço de conversação mútua, que está mudando a própria relação entre público e privado, a partir do momento em que qualquer pessoa tem poder para deliberar uma ideia e condições de dissipá-la em frações de segundo.

A maior alteração que a internet trouxe, e que foi possível graças ao sistema capitalista que impera nos dias de hoje, está na cadeia de valor. Pois, se antes os “mass midia” controlavam o conteúdo em 100%, no que diz respeito: 1) a produzir o conteúdo 2) manipular industrialmente o material (desde o papel até a impressão) e 3) distribuir o produto; hoje as tarefas são distribuídas. A internet detém R$ 2,4 trilhões, que são divididos em: 1) 60% para as empresas de acesso 2) 20% aos agregadores 3) 14% aos devices/softwares e 4) 7% a quem produz conteúdo.

Portanto, é válido discutir o quê a Revolução Tecnológica e Midiática, aliada ao sistema capitalista, trouxe de novo e ainda está trazendo, tanto no aspecto da mudança da esfera pública literária, como no futuro dos veículos tradicionais e dos jornalistas/repórteres, mas é fundamental que se promova uma discussão ao redor da maneira como está se dando a cadeia de valor, a forma como as pessoas estão consumindo informações e como essas estão sendo vendidas, pois isso revela um novo paradigma, que reúne aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais.

“… um pedaço de carne”

Por Magno Viana

Ao retratar no seu mundo ideológico o sujeito e o objeto, o escritor Aldous Huxley, o faz de forma tão intensa que confunde e, até mesmo promove a fusão dos dois conceitos.

Percebe-se na dialética da personagem Bernard Marx com seus interlocutores, aparente pasmo daquele por causa da naturalidade destes com relação à liberdade. Acreditam que ser livre no sentido verdadeiro do termo é fazer o que se imagina, sente ou percebe necessário.

Viver a busca e consumação das experiências humanas sem restrições é o ápice da própria existência. Desta forma, Admirável Mundo Novo é a categórica imagem revelada do universo da satisfação sensorial.

Todavia, Marx contesta as ideias e condutas dos patrícios, as quais, entretanto, perpassam todo o conteúdo do livro. Ele afirma que a mulher poderia ser observada como sujeito, um ser personalizado.

Huxley racionaliza, mecaniza e petrifica as relações humanas, objetivando a felicidade, que segundo ele, pode ser propiciada por uma condição de vida atrelada à organização social, efetivação de anseios, promiscuidade, novos padrões de comportamento e extinção dos núcleos familiares.

O escritor nos remete a um mundo cujos habitantes primam ser despojados de sensibilidade, fraqueza e falibilidade. O romantismo é banido. Homens e mulheres fazem sexo com quem e quando quiserem. Creem na tese “… cada um pertence a todos. HUXLEY, p.84”.

Assim sendo, não existem limitações na esfera inter-relacional. Todos os homens passam a ter autonomia para fazer o que anseiam com os semelhantes.

Mustafá Mond, uma das personagens da obra, é o protótipo da realidade que Huxley considera possível. Ao asseverar que não existe impedimento que não possa ser desfeito, Mond prefigura o homem-deus, trabalhado cuidadosa e sutilmente no Mundo Novo desenhado no livro.

Seres femininos também não se incomodam em ser alvo dos desejos sexuais desenfreados dos masculinos. Mesmo por que, no ponto de vista das fêmeas, o crescimento advindo dessa experiência será para ambos.

Lenina em um diálogo com Fanny reclama da falta de variedade de parceiros sexuais “… estou começando a sentir um pouco de tédio por não ter todos os dias outra pessoa, que não seja Henry. (Henry Foster), p. 85″

A mente destoante na história em apreço se manifesta nas palavras e semblante de Bernard. “Falam nela (na mulher), como se fosse um pedaço de carne. p.87”. Ele empalidece depois de ouvir o que os concidadãos pronunciam acerca do tipo de relação que o macho deve ter com a mulher. “Hei de experimentá-la, certamente. Na primeira oportunidade. p. 85”.

Uma pergunta que ressoa diante da elaboração teórica de tal forma de vida, deveras surpreendente, permissiva e isenta de afetividade, é se de fato haverá consolidação e durabilidade de relações que se desenvolvem descomprometidas de todos os tipos de laços. Sejam eles, fraternais, conjugais ou familiares.

Origina-se em seguida um outro questionamento tão pertinente quanto o primeiro: Será que a sociedade do século XXI está caminhando para o planeta previsto por Huxley, ou ao invés de estar na direção desse horizonte, ela não já está residindo nele e o recebendo em doses homeopáticas, filosóficas, sociais, religiosas e políticas?

Diálogo das cadeiras

A reivenção das relações humanas na era da tecnonologia dos meios de Comunicação

Por Alessandra Rios

Era  18 de setembro de 1950, data memorável para a América Latina: “Está no ar a       TV no Brasil”. A frase dita por Sônia Maria Dorce, índia, com então cinco anos de idade, marca a chegada da TV nos lares das famílias brasileiras.

As imagens eram de baixíssima qualidade. O primeiro telejornal, “Imagens do Dia”, não tinha horário fixo. Podia ser exibido às 09h30 ou às 10h, ficando a mercê da boa vontade dos equipamentos da época, sucetíveis a frequentes problemas técnicos e de operação.

A TV brasileira percorreu longos anos até conquistar a qualidade técnica e de produção que temos hoje (em seu auge, atualmente, com a tecnologia digital). Porém, para a geração dos baby boomers que estavam chegando ao mundo e a de seus pais, aquela caixa luminosa e nada estética, causou uma revolução na forma como as pessoas se relacionavam.

A tecnologia era cara e acessível a poucos. Viizinhos, parentes e amigos se reuniam à noite nas casas dos “privilegiados” para assistir às programações. Se por um lado a TV serviu como ponte para unir, ao menos aparentemente, “os distantes”, por outro, ironicamente, afastou “os próximos”. Os sofás e cadeiras das casas foram testemunhas disso.

Anterior à chegada do mais novo membro da família, a TV, as cadeiras e sofás das salas, dispostos sempre frente a frente, foram durante anos fiéis confidentes dos diálogos informais entre pais e filhos, quase como “divãs” dos reclames familiares. Com a tecnologia, as cadeiras se tornaram divãs do espetáculo imagético, assumindo a função de “psicólogas” de novos reclames: os do “plim, plim”.

Dispostas agora, parelamente, sob a meia luz do seu novo confessor, as cadeiras talvez até sintam uma certa nostalgia ao relembrar  as  entusiasmadas conversas humanas.

No mesmo caminho, porém a passos mais largos, segue a internet. Se na era da TV as cadeiras deixaram de “se dar as mãos”, diante das inifinitas possibilidades do mundo virtual e interativo, essas se dão até mesmo as costas. Basta pensar em como elas são dispostas nas lan houses, por exemplo.

“A dependência à imagem isola o indivíduo e lhe propõe simulações do próximo. Quanto mais estou na imagem, menos invisto na atividade de negociação com o próximo, que é, na reciprocidade, constituitiva de minha identidade.” Essa colocação feita por Marc Augé em “Sobremodernidade: do mundo tecnológico de hoje ao desafio essencial do amanhã” nos convida a uma reflexão sobre o problema da virtualização, da substituição do real pela imagem – uma inversão de valores que vêm causando profundas transformações nos relacionamentos e na formação de identidades.

Em Farenheit 451, romance de 1953, uma das personagens projetadas por seu autor, Ray Bradbury, Mildred, é a mulher do personagem principal, Guy Montag. Isenta de qualquer senso crítico, a personagem vive no limite do imaginário, onde estabele relações com uma família virtual, projetada por um equipamento tecnológico. Todas as suas decisões e emoções são tomadas com base nessa relação que, embora fictícia parece muito mais embasada e real que o relacionamento com o próprio marido.

Não o bastante, a personagem ainda utiliza diversos medicamentos para esquecer sua condição de vida e suportar os relacionamentos reais aos quais é exposta e obrigada a conviver. Adouls Huxley formulou um entorpecente parecido com esse em “Admirável Mundo Novo”: o soma era a solução para a fuga de qualquer situação não-prazerosa ou que viesse causar conflitos entre os demais integrantes das castas.

Seriam, portanto,a TV e mais recentemente a internet justamente esses meios de fuga, os “entorpecentes” da sociedade pós-moderna?  E mais: em contato com esses meios, teriam emergido do chão e morrido as raizes identitárias do ser humano?

O homem vive buscando, continuamente, novas formas de produzir-se a si mesmo (de modo real ou fictício), já dizia Ernst Fischer, em seu livro “A necessidade da arte”, e a arte e os meios de comunicação são os caminhos que facilitam o processo de fuga, de autoprodução. Segundo ele, é muito mais fácil enfrentar os dramas da vida particular e coletiva, vendo-os reproduzidos e encenados em peças teatrais, novelas, reality shows entre outros.

Por outro lado, a premissa de que esses meios estejam contribuindo para a rejeição de valores e negação da identidade não é verdade suprema, pelo contrário; deixando um pouco aquém os interesse econômicos e políticos, como se explica o fenômeno da criação de tantas igrejas/seitas religiosas? E o resgate e revalorização de cutluras dadas praticamente por extintas em muitos países, sobretudo asiáticos? Uma das possíveis resposta talvez seja a busca insana do ser humano por algo ao qual ele possa se agarrar e aprofundar novamente suas  rasas raízes.

Assim, no silêncio da meia luz da TV ou de uma tela de computador, vemos algumas salas tomadas pela nostalgia e pelo desejo de aproximar mais as suas cadeiras, ao menos paralelamente, dando a elas a opotunidade de “se darem as mãos” novamente e recomeçarem um diálogo.

Entre o Ter e o Ser tecnológico

Por Renato Silvestre

“Um bom computador e um carro veloz pra me manter distante de mim”. Esse verso que inicia a canção “Zero e Um” da banda capixada de hard core, Dead Fish, retrata um pouco do espírito do nosso tempo. Um tempo onde o Ter e Parecer corre o risco de tornar-se mais relevante do que Ser.

Nesse tempo de computadores portáteis, celulares magníficos e redes sociais digitais que fascinam e conectam pessoas ao redor do Planeta, em velocidades cada vez maiores, a tecnologia deixa de ser um mero suporte físico aos anseios de criação humanos. Em certa medida, a tecnologia deixa de ser meio e passa a ser o fim, ou o princípio dele.

O convívio social, outrora, fundamental para o processo de autoconhecimento do ser humano é substituído pelo isolamento frente a telas cada vez mais finas. Mesmo quando acompanhados parecemos cada vez mais distantes uns dos outros, distantes de nós mesmos. Ou será que ninguém nunca viu pessoas sentadas à mesma mesa dialogarem mais com seus celulares do que com quem está a sua frente? Ou famílias inteiras mais atentas à novela que colore a TV do que a vida de seus próprios “entes queridos”?

Há uma aflição que paira nesse nosso poluído ar pós-moderno. Uma aflição que se confunde com o deslumbramento diante da “admirável” tecnologia que construímos.

O filósofo tcheco Vilém Flusser já alertava para esse risco constante da criatura tornar-se mais importante do que o criador, fazendo deste um funcionário/dependente de forma extrema do outro.

Estaríamos correndo este risco ou essa seria apenas parte de nossa “evolução” como espécie?

Não é simples responder a esse questionamento, pois a mesma tecnologia que aprisiona também pode libertar, se for usada com sobriedade.

Um exemplo claro disso aconteceu durante a conhecida “Primavera Árabe”, no início de 2011, onde uma onda de manifestações contra os governos ditatoriais em países do norte da África e do Oriente Médio se alastrou e ganhou força por meio de redes sociais digitais como o Facebook e o Twitter. O resultado imediato foi a ganho da atenção mundial, a pressão política e a consequente queda de ditadores como Zine el Abidin Ben Ali e Hosni Mubarak, que se permeavam no comando dos países por 23 e 30 anos, respectivamente.

Por outro lado, esse avanço tecnológico nos faz passar por um tempo de transição, um tempo que causa estranhamento e que é capaz de criar “não lugares” (brincando com o conceito do francês Marc Augé) até nos lugares mais improváveis, como a nossa casa ou nossa família, pois se não há vivência, sentimento de pertencimento, interação e, principalmente, vínculos reais e humanos o “lar doce lar” vira pó tecnológico.

Se fazemos parte de um gigantesco rebanho de um “Admirável Gado Novo” – parafraseando a música de Zé Ramalho – e se estamos atrelados a loucura do consumismo de quem sempre quer o “Admirável Chip Novo” – recordando a canção da baiana Pitty –, só o tempo poderá confirmar. No entanto, o que vejo é que esse “povo marcado e feliz” ainda continua extremamente preso ao poder do talvez imutável “pense, fale, compre, beba”, que desumaniza e programa a humanidade para seguir nessa eterna correria cotidiana, cada vez “mais rápido”!

Fica a reflexão: “Todo excesso traz, em si, o germe da autodestruição!”, Aldous Huxley.

Novo Mundo: mera utopia ou possibilidade?

Por Magno Viana

“Pois bem, agora nós temos juventude e prosperidade até o fim…” (HUXLEY, Aldous, 1932, p. 357).

Na obra intitulada Admirável Mundo Novo, do escritor britânico Aldous Leonard Huxley, pode-se constatar uma concatenação narrativa, cujo ápice é a recriação do Universo com todos os integrantes, desde os humanos até os objetos inanimados, em uma estrutura ambiental e social dotada de liberdade, permissividade e busca acompanhada da efetiva satisfação dos desejos, sejam eles pessoais, profissionais ou sexuais.

Na frase que inicia o texto pode-se perceber a fala da personagem Mustafá Mond, na qual ela afirma que a independência fora alcançada pelo homem, mediante a evolução conquistada, por intermédio dos recursos tecnológicos. O conhecimento, a ciência, a prática e as ferramentas, no ponto de vista de Mond, fizeram do ser criado um criador.

Criador do seu próprio Deus, ou de uma forma particular de vê-lo e contatá-lo, recriador de si mesmo, pelo fato de programar um estilo de vida condicionado e condicionante, no qual ele pode realizar tudo o que pensar e quiser, enfim, o homem agora é capacitado para planejar, recriar e administrar um novo mundo. A vida passa a ser coordenada para proporcionar a felicidade plena aos humanos, por meio da quebra das limitações, como as regras religiosas e sociais, a velhice, o medo, a pobreza e a morte. Ao atingir esse estágio o Ser se completa e se apossa do cabal estado de contentamento.

Deus seria concebido de acordo com a imaginação e vivências de cada pessoa, o homem teria poderes que o igualaria a um Ser Supremo, a tecnologia é o recurso disponibilizado, aprimorado e utilizado para o êxito imbatível dos recentes todo-poderosos. Os quais podem ser considerados assim, por estarem em uma condição de vida nunca vista na trajetória dos habitantes da Terra.

O autor transita de forma gradativa pelas possibilidades de superação das criaturas, em capacidade evolutiva constante e ininterrupta. Prima pela inovação, programação e conservação em harmonia com um tipo específico de organização da sociedade em classes planejadas antecipadamente nas categorias: Superiores e Inferiores. A primeira é constituída daqueles que governarão. Que serão dotados de inteligência em maior grau. E a segunda é composta pelos servos, que por sua vez, serão desfavorecidos pelos atributos intelectuais e privilégios sociais.

Ao criar personagens projetadas para prefigurar um novo formato de planeta e em uma inusitada percepção de vida, Huxley acredita numa dimensão existencial que está além do até então experimentado no cotidiano e nos laboratórios de pesquisas científicas. Ele se posiciona na história como um mentor atuante na esfera da psicociência, ao recorrer à ciência para estudar e investir na alteração dos mecanismos humanos desde o físico até as características psicológicas. Ao mesmo tempo em que acompanha o desenvolvimento, como produto de sua interferência, e analisa o andamento do processo, para possíveis novas intervenções.

Diante do apontamento de parâmetros emergentes das cogitações e exposições de ideias de um aparente visionário, será que o leitor pode apostar na veracidade e possibilidade da concretização do mundo ilustrado pelo autor, ou precisa-se de certa precaução para não se navegar ingenuamente numa embarcação cujo destino não se desponta em distância alguma?